Chiclete
com Banana
Durante
a minha prova para tirar carteira de motorista usei um grande aliado
que meu pai me ensinou para manter a calma, mascar um chiclete. Não
sei porque, mas funciona, relaxa a mandíbula.
Se eu tivesse feito isso na primeira vez que fui fazer a prova do
carro, não teria reprovado. Tirei
carteira AB, durante o teste de
moto
passei com facilidade pelo
percurso em zigue-zague.
Mas no dia do teste com o carro, não sei porque, estava muito
nervosa. Havia um homem na fila de espera comigo, que não parava de
tentar me apavorar. Falava que já tinha feito o teste não sei
quantas trezentas vezes. E que, com certeza, eu também não seria
capaz de passar. Porque
se ele não passou...
Naquele
dia estava de vestido quadriculado
azul, usava um
colar com a representação de um relógio enorme. Acho que meu colar
o perturbou, e ele me pegou para Cristo. Deveria
ter, pelo menos, uns trinta anos.
O que eu fiz foi concordar com tudo que ele dizia, e depois me
posicionar o mais longe possível dele. Porque com
gente
louca não se discute. Enfim, continuei esperando a minha vez. Não
era para ter dado certo naquele dia, entrei no carro e de tão
nervosa que
estava
deixei o Gol preto morrer três vezes. Reprovei. Essa
é a única regra para reprovação, não deixe o carro morrer mais
de três vezes.
Mas
então o que eu fiz? Desisti? Não. Liguei para minha mãe para
desabafar. E depois subi até a autoescola para pagar o próximo
teste. Na “Paraíso”, esse era o nome da autoescola, estava me
sentindo um lixo. Me cobrava muito, porque pensando melhor sobre
isso, eu não tinha muita experiência. Aprendi a dirigir na
autoescola, e não muito cedo como geralmente acontece com os
meninos. Estava desanimada porque ia ter que tirar do meu bolso essa
nova derrota. Mais
uma entre tantas.
Hoje,
eu tenho um fusca amarelo banana. E realmente aprendi a dirigir com
ele. Dirigir não é só saber os comandos básicos da direção. É
saber se comunicar com os outros carros, é saber antecipar
movimentos desses outros sofás motorizados que circulam por aí. Se
você não souber isso, provavelmente vai ser a causa ou a
consequência de um acidente.
No
segundo dia de teste, estava mais confiante, e vestia minha camisa
xadrez verde. Que eu considero sendo algo que me dá sorte. E deu.
Mas de um jeito que outros não considerariam sorte. O que aconteceu
foi o seguinte, estava na fila, com minha camisa da sorte, meu fone
de ouvido ouvindo música relaxante, e mascando meu chiclete. As
pessoas em volta de mim insistiam em tentar puxar assunto comigo. E
eu para não perturbar minha própria paz daquele dia, recusava
educadamente, me fingindo de surda. Mas em um momento, não consegui
evitar as investidas de uma senhora que queria porque queria contar
fatos estranhos de sua vida para mim. Me considero como sendo um ímã
para pessoas que precisam desabafar. É incrível, eu sento em
qualquer lugar, e alguém se aproxima de mim para me contar algo
muito íntimo de sua vida. Lembro de um dia que um senhor estacionou
sua Cherokee perto de mim quando eu estava num ponto de ônibus, e me
contou que no dia anterior o seu filho, que era bombeiro, havia
morrido naquele ponto da estrada tentando salvar alguém de um
acidente de trânsito.
Ele
se sentia desconsolado e não entendia porque aquilo havia
acontecido, fiquei ali com ele simplesmente ouvindo tudo e me
compadecendo. Depois que seu relato acabou, ele me perguntou se eu
não queria uma carona… Não me entendam mau, eu confio nas
pessoas, percebi que ele se sentiu melhor depois que me contou
aquilo. Mas de jeito nenhum eu ia entrar no carro de um desconhecido.
E se ele mentiu? E me contou tudo aquilo apenas para que eu entrasse
no carro dele? E se ele fosse um assassino? Ou talvez ele só
quisesse companhia, perder um filho deixa qualquer um sem rumo. Mas
na dúvida… prefiro continuar na dúvida. Respondi:
“Não obrigada, meu ônibus já está vindo, meus pêsames ao
senhor e
sua família,
e se cuide”.
A
senhora que puxava assunto comigo naquele dia estava me estressando a
ponto de eu começar a rezar pedindo que ela parasse. Quando de
repente escutamos uma batida metálica, uma das candidatas a CNH
havia metido o pé no acelerador e batido o carro na cerca dentro
do ginásio de esportes que fazíamos o temido teste da baliza. Ela
saiu transtornada do carro, gritando e chorando que tinha perdido o
controle do carro. Depois dessa todos se manifestaram, tinha gente
que zombava da pobre mulher, tinha gente que xingava, tinha gente que
reclamava que isso ia “atrasar mais a vida deles”. Que horas
aquilo ia terminar?
Nessa,
o mesmo rapaz que no meu último teste zombou de mim, que eu não
seria capaz de passar, achou uma boa ideia puxar briga com um dos
instrutores da baliza. Ele infernizou tanto a cabeça do cara, que
ele chamou a polícia. Fiquei ali perplexa observando aquela
balbúrdia. Ninguém acreditava no que estava acontecendo, vimos um
rapaz passar de mero candidato a CNH de carro, a novo
presidiário. Depois que ele foi levado de camburão, num
show pirotécnico o
instrutor veio até mim e disse: “É sua vez”. Vocês podem
pensar que toda essa situação me
paralisou. Mas na verdade, foi o que me deu um impulso. Eu não
desejo o mau de ninguém, mas acontece que perceber que o pior que
podia acontecer comigo naquele dia, já tinha acontecido com outra
pessoa, me deixou leve.
Poderia
reprovar, mas, pelo menos, presa eu tinha certeza que não iria.
Entrei no carro, fiz a baliza normalmente e
saí para fazer o circuito fora do ginásio. Vi a primeira placa, que
me lembro que o símbolo dizia para não entrar a esquerda, e eu
sempre cheia de dúvidas perguntei: “Entro na esquerda?” Ao que
ele respondeu: “Você é que sabe...” Ok, foi um pouco imbecil
fazer uma pergunta dessas, isso fazia parte do teste. Pensei por uns
três
segundos e entrei na direita. É estranho que quando se
está sendo testado de qualquer forma, algo que para você é
simples, se torna complicado. Fiz o percurso por um curto caminho e o
instrutor pediu para eu parar, era a vez da moça que estava junto de
nós no
banco de trás. Trocamos de lugar,
e passei pela tortura de ver de camarote ela sendo testada. Estava
nervosa demais. Mas aparentemente passou também.
Digo
isso para mostrar que não sou mais uma adolescente. Apesar de criar
gatos como uma criança. Mas não posso fazer nada a esse respeito,
acho que meus gatos me protegem de almas das trevas. E eu tenho como
provar, vocês querem saber? A natureza é muito mais sábia do que
vocês podem um dia pensar.
Continua...
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