Pra mim sempre foi difícil de entender como uma cidade que é tão violenta, tenha sido o berço de um ritmo tão calmante. Que inspira tanta gente, junta tantos casais, embala sono de bebês... O período agora é de guerra contra as favelas, ou será se sempre foi? Nunca vi tantas notícias de pessoas perdendo a vida sem um bom motivo. Se é que existe motivo para tal. O Rio está vivendo uma espécie de extermínio de gente pobre. Charlie veio de família rica. Eu não. Esse já era um bom motivo para que brigássemos, as vezes, eu chamava ele de burguesinho, e ele me chamava de política de botequim. Éramos jovens demais, e estávamos apaixonados. A paixão leva as pessoas a roupantes de agressividade constrangedores para quem olha de fora. Por isso, em nossa viagem que fizemos ao Rio, na época, tudo financiado pela família dele, nós ouvíamos músicas como para equilibrar nossa relação, e nossos sentimentos em relação ao outro.
Sabe como é complicado gostar de alguém e ao mesmo tempo por vezes querer distância dessa pessoa. Daí ela saí, e você se sente sozinho e vazio? Nós precisávamos apenas da presença um do outro, nem era necessário, e as vezes era o melhor, ninguém dizer nada. Apenas estar presente, a companhia era o mais importante. Não queríamos falar, só queríamos nos beijar, abraçar, e fazer amor ouvindo música. Além de conhecer o Brasil. Eu quando pequena viajava muito de carro com meus pais. O Charlie não, nasceu e cresceu no Rio Grande do Sul. Eu fui crescendo e perdi a vontade, além de ter mesmo um pouco de medo de viajar para muito longe. A ideia de viajar durante as férias da faculdade foi dele. Queria me levar ao Sul, conhecer seu Estado, mas eu não quis.
Charlie: Porque não? Você pode conhecer minha família.
Capitu: Acho um pouco cedo para isso não?
Charlie: Eles me perguntam se tenho amigos, queria te levar lá. E comprovar que eu estou me relacionando com seres humanos.
Capitu: (Sorrindo) Nada contra, mas o Sul é muito frio. E não era o Sul que queria se separar do resto de nós? Vocês teriam que inventar um nome novo para virar um país independente.
Charlie: É bem a cara dos sulistas, pessoal meio antissocial.
Capitu: Eu queria um dia ir no Rio de Janeiro, acho o lugar mais bonito e controverso desse país.
Charlie: Não é meio perigoso?
Capitu: Sim, e empolgante também.
Depois de muita especulação e negociação, lá fomos nós ao Rio de Janeiro. Eu queria passear pelas danceterias, e conhecer os bailes funk. O Charlie queria conhecer os pontos turísticos, e torrar na praia. Fizemos os dois. Charlie não gostava da música agressiva, mas gostava de me ver dançar. O morro é frequentado muitas vezes por pessoas que não são da comunidade, estão apenas em busca da diversão. Da música, das drogas... do sexo, mas como eu já disse, o casal Síndrome do Pânico não quis se drogar. Apenas a música e a bebida já nos deixou bem perturbados. Foi muito divertido, se perder com ele por lá, fizemos muitas amizades. Agora vendo as notícias das mortes no morro pela PM, fico pensando que podia ser nós dois ali, mortos dentro de alguma viela. Estamos vivendo um governo de morte.
Charlie: Lembra quando a nossa vida era só diversão, depois bossa nova para acalmar e conseguir dormir tranquilos?
Capitu: Faz tanto tempo. Você tem alguma nova companhia para circular por aí?
Charlie: Não tenho mais. O que você vai fazer esse ano?
Capitu: Não faço a mínima ideia, tudo que eu planejei deu errado.
Charlie: Eu não tava afim de nada, mas você sempre me dá vontade de sair por aí. Vamos para o Rio de novo?
Capitu: Eu acho que não é um bom momento.
Estávamos os dois deitados na cama conversando, eu com minhas pernas jogadas em cima das pernas dele. Ouvíamos música, nosso encontro nos deixou eufóricos, e precisávamos nos acalmar.
Charlie: É, eu vi as notícias, é muita gente perdendo a vida por nada. Como você está se sentindo?
Capitu: Impotente.
Charlie: Isso você não é, esse período vai passar.
Capitu: Sempre me irritou você ser sempre tão positivo.
Charlie: Confie. Escuta a música, se a gente se encontrou de novo é por algum motivo.
Capitu: A gente se encontrou porque você me chamou, e eu vim.
Charlie: E você está disponível, e precisando de mim por algum motivo.
Ele tinha razão.
Contínua...
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