sexta-feira, 7 de junho de 2019

Capítulo 11. de “Água Parada”

O Escorpião Rei

 E mais uma vez, o amor tentando entrar. Devo contar do dia que fui picada por um escorpião dentro da minha cozinha. Era um dia comum, eu já sabia que não encontraria mais o Alain Delon porque ele tinha se mudado para outra cidade. Naqueles dias ao mesmo tempo que estava chateada com ele por ir, estava comigo mesma porque costumo estragar os relacionamentos sozinha. Tenho um comportamento muito autodestrutivo, é algo que faz parte de mim desde muito tempo. É um dos motivos pelos quais busquei terapia durante meu curso de psicologia.
 Sobre o escorpião que me picou devo contar que foi uma experiência incrível. Fui até a cozinha beber água, quando estava próxima a pia senti uma picada no pé direito. Demorei ainda um pouco para olhar para baixo. Foi quando vi um pequeno escorpião negro balançando suas patas dianteiras, como se estivesse dançando lambada com suas castanholas. Achei ele muito fofo quando vi, mas me passou pela cabeça que estava “puto da vida”, pela forma agressiva que se movia.
 Não sentia dor porque a picada em si do escorpião não dói nada, é quase imperceptível. Até senti pena dele, porque eu poderia ter pisado em cima dele e matado, foi esse o motivo dele ter me picado. Acontece que obviamente não fiquei só ali parada olhando para ele. Pensei rápido: “se ele for um dos fatais eu estou ferrada”. Minha mãe que tinha acabado de sair para trabalhar (ela trabalha muito), voltou com meus gritos, sorte minha que ela ainda estava próxima. Porque eu naquele tempo tinha carteira de motorista, mas não tinha muita prática, nem carro próprio.
 Portanto, foi ela quem me levou ao hospital. Fomos para um hospital particular aqui da cidade, meu pai ainda tinha convênio médico. No hospital foi onde tive uma revelação, porque ainda estava me sentindo muito mau por causa da falta do Alain Delon, mas lá na sala de emergências tive a certeza de que tinha tomado a decisão correta em não prosseguir com esse relacionamento com alguém tão mais velho do que eu.
 Enquanto eu sofria as dores da picada de escorpião; é uma dor muito interessante que para mim se assemelha muito as cólicas menstruais, como fui picada no meu fálico dedão direito, a dor ia descendo e subindo pelo meu corpo, como se fossem pequenos e grandes (iam se alternado) choques elétricos pelo meu corpo. Era uma dor realmente cruel, eu dentro do carro com minha mãe, gritava para ela ir mais rápido, porque além da dor, já sentia que meu pé ia ficando dormente. Comecei a achar que ia perder meu pé, fiquei desesperada, e eu que me considero uma pessoa fria - pouca coisa me desespera - naquele dia fiquei apavorada.
 Só pensava; como é possível um bichinho tão pequeno causar tanta dor? Pois é, o escorpião é todo trabalhado no ódio. Tive que levá-lo comigo para o hospital, geralmente essa é a melhor coisa que se faz quando você é picado por um bicho peçonhento, para identificar que tipo de veneno entrou no seu corpo é bom levá-lo. Lá na sala havia várias macas, e uma cortina que separava os pacientes. Fui colocada em um leito, e um cateter com soro foi colocado em mim. Se tem uma coisa que eu odeio, é esse cateter, é muito torturante ter isso enfiado no seu braço. Mas se eu quisesse que aquela dor parasse, precisava tomar todo o soro pela veia.
 Naquele momento na maca, eu já observava pequenas veias vermelhas no meu dedão aparecendo. E meu pé já estava totalmente dormente e impossibilitado de se mover. Perguntei para a doutora que me atendeu se ia perder o pé. Ela disse que não, eu só precisava ficar ali e “tomar” todo o soro, que aos poucos a sensibilidade do meu pé voltaria. Fiquei ali agonizando, quando ouvi e vi alguém vomitando na maca do meu lado. Era um homem pela voz, ele não parava de gemer e em seguida vomitar.
 Não via seu rosto por causa da cortina, mas via a moça asiática que o acompanhava, seu semblante mostrava que estava de “saco cheio”. Foi quando uma das funcionárias da limpeza puxou a cortina para limpar o vômito do meu colega acamado. E eu tive uma revelação quase que divina que acalmou meu coração. Foi como ver como seria meu futuro, se tomasse a decisão errada. Alain Delon, certa vez, me fez a seguinte proposta: “porque você não tranca a faculdade, e viaja comigo aí pelo país?”. Não posso mentir, fiquei tentada sim em ir nessa aventura que teria com ele ao melhor estilo “Lolita”, mesmo já sendo de maior quando ele me propôs isso. Mas é claro que preferi não ceder a esse meu desejo inconsequente, aproveitei a companhia dele enquanto durou.
 No hospital, quando olhei para o lado quem eu vi? Isso mesmo, Alain Delon, uma versão muito mais velha do meu amado crush judeu. E devo dizer que ele não estava nada bem, me pareceu que tinha algum tipo de intoxicação alimentar, gemia e chorava. Sabe como são os homens com qualquer desconforto físico, parece que estão morrendo. Não era quase nada, e ele fazia um show. Sei disso, porque a dor que eu estava sentindo era lancinante, e eu aguentava com dignidade. Mas ele não, era terrível, aquilo começou a me incomodar muito mais do que o veneno do escorpião em mim.
 Até a moça terminar a limpeza não podia fechar a cortina, então tive que ver aquela dinâmica horrível de casal que eles tinham, e imaginar que se eu tivesse escolhido jogar tudo para o alto por causa de uma paixãozinha teria aquele futuro. Estaria totalmente indiferente ao sofrimento da minha “metade da laranja”, enquanto ele padece a minha frente. Como a moça asiática que estava com ele agia. Foi uma lição tão bem colocada, e num momento tão certo do que acontecia comigo, que eu não acho que foi só obra do acaso. Foi um tipo de mensagem para mim. Eu estava apaixonada, e teria me destruído de vez, se tivesse dito sim a “proposta indecente”.

Continua...


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