domingo, 2 de junho de 2019

Capítulo 5. de “Água Parada”

Alain Delon, e meu Crush Zé Droguinha

 Hoje minha vontade é falar sobre meu vizinho maconheiro. Sim, os “zé droguinhas” são muito conhecidos popularmente falando. Mas, por experiência própria a meu ver são “gente de bem”. Geralmente são pessoas de baixa renda, que trabalham em empregos massantes e repetitivos, não possuem muita oportunidade de trabalhar em algo que se sintam mais produtivos, e muito menos grana suficiente para pagar uma terapia.
 Pois bem, eu me identifico muito com alguém assim. Preciso contar que hoje recebi mais um sinal entre muito de que minha gata fantasma permanece próxima de mim, me observando e protegendo. Por algum motivo besta e fútil, como sempre, minha querida mamãe estrela de hollywood, resolveu que vai regular o uso da máquina de lavar aqui de casa. Uma grande máquina branca e totalmente automática, lava e torce. No Brasil secadora é um luxo para poucos, se secam as roupas no varal, assim se gasta menos energias limpas.
 Agora eu só queria saber qual a lógica disso, sendo que a máquina foi feita justamente para facilitar e libertar a vida de todos os envolvidos nessa história de usar roupa limpa. Higiene pessoal também é saúde galerinha. Então, fiz o questionamento. A resposta? “Você gasta muita água”. Pra começar eu sou feita de água, e você também; 70% do meu e do seu corpo é água. O resto é hipocrisia. Assim, minha conclusão é a seguinte; temos uma ditadora aqui. A ditadora da lavagem de roupa da forma mais adequada e “econômica possível”.
 Sabiam que existem muitas formas de limitar um ser humano? Mantê-lo usando roupas sujas é uma forma eficaz. Por isso, no mesmo momento acionei a patrulha do meu pai — avisei que lavaria roupa — e que o sabão em pó estava acabando. Pronto, problema resolvido, e minha “amada mãe de todos” e dona de “todo o amor do mundo”, voltou para as sombras do vale da morte.
 Sabe aquele meu dom sombrio de atrair pessoas que querem me contar coisas terríveis de sua vida? Houve um dia, a algum tempo atrás, quando trabalhava de caixa numa dessas redes alimentícias, de serviço extremamente angustiante, pelo alto grau de dificuldade em lidar com o tipo de pessoas que as frequenta. Pessoas com muita fome e irritação (por causa do trânsito), redes essas que ficam próximas a rodovias. E porque a junção de fome; irritação; e lidar com a investigação normal de uma operadora de caixa sobre a possibilidade de ter recebido uma nota falsa, irrita qualquer um.
 Como se investiga se uma nota é ou não é valsa, desculpe falsa? Levante ela em direção de alguma luz, natural ou artificial, para ver os números e letras escondidos, as chamadas Marca D´água. Esfregue seus dedos nela para sentir o alto-relevo em algumas das letras da nota, como se você fosse cego, e tivesse que ler em braille. Apague a luz do ambiente, para observar os números fluoresces, procure o quebra-cabeça… e por aí vai. Nossas notas de Real, revelam a natureza selvagem do brasileiro. Minha nota favorita é a da onça-pintada. São muitos animais que representam toda a nossa riqueza mística. Espero que esse leque de animais milionários não acabe nunca. Apenas se for para homenagear o centenário do Mago Violeta, eu tenho uma nota dessas na minha carteira. E ultimamente só ela mesmo.
 Tudo isso, fez com que eu me perguntasse porque um rapaz muito bem-vestido, e aparentando coesão espiritual, veio até meu caixa com uma barra de chocolate na mão, e me disse enquanto eu passava sua compra: “você acredita moça, que eu acabei de capotar meu carro três vezes na rodovia e saí sem nenhum arranhão?” Ouvi aquilo como todas as coisas estranhas que ouvia ali todo dia, as pessoas geralmente associam dinheiro com algo sexual, e sempre transformavam inconscientemente meu balcão do caixa numa cama de dois amantes. Onde geralmente os segredos mais obscuros são contados a venerada concubina que ele acabou de saborear, Bruna Surfistinha que o diga. O que respondi foi: “Nossa, e o que você vai fazer agora?”. Ele: “Vou esperar a Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A) vir, e ligar para minha namorada”. E foi o que ele fez. Fiquei observando ele pela porta de vidro falando com sua amada. Achei fofo, comia o chocolate cabisbaixo.
 Mas voltando ao meu vizinho, vou chamá-lo de Roberval para proteger sua identidade secreta. É realmente alguém que transformou minha vida para melhor. De um jeito estranho que só eu sou capaz de arranjar, ele que sempre foi meu vizinho de esquina, nunca tinha se dirigido a mim. Fui conhecê-lo nos corredores da minha faculdade. Acho que se sentiu atraído pela minha habilidade na direção do meu fusca bananinha. E puxou assunto comigo. Me dei bem com ele de cara, geralmente me dou bem com geminianos, os meninos, não as meninas. Preciso depois contar sobre uma geminiana que me fez ter vontade de cometer um homicídio. Roberval gosta muito de papo, e está sempre mudando de opinião, a real “Metamorfose Ambulante”, que o querido Raul Seixas tanto diz que prefere ser.
 Eu sinceramente acho um pouco cansativo, as vezes preciso me afastar de Roberval. Ele fala sobre tudo, mas não se aprofunda em nada. Tem muito amigos, esses seus amigos que um dia ele me convidou para conhecê-los. Achei que seria um rolezinho comum, mas não, foi esotérico. Ele anda com dois meninos a tiracolo, um rapaz negro que eu vou chamar aqui de Charlie, e outro rapaz mais feminino que eu vou chamar de Freddie. Eles fizeram uma verdadeira operação médica para me iniciar em algo que eu ainda era virgem. O uso da Cannabis Sativa. Sim meus amigos, sou amante do reggae em toda a sua beleza.
 Ele e seus amigos arranjaram a maconha para mim, na boca de fumo mais próxima. Em todo o mundo tem, não adianta se de fazer de santo. Compraram biscoitos, suco e levaram água. Para eu comer antes e não correr o risco de sofrer uma queda de pressão. Ou uma esquizofrenia em mim ser desencadeada. Nos encontramos na encruzilhada aqui do meu bairro, e fomos subindo a nossa Toca, a céu aberto, num local alto e estratégico. Era alto o suficiente para que víssemos e não fôssemos vistos, tínhamos verdadeiros móveis improvisados ali para nosso conforto.
 Assim, de uma forma muito acolhedora, e como se estivéssemos em uma sessão grupal de terapia. Eles batiam papo comigo, para saber quem eu era, o que queria, e para onde pretendia ir. E bolavam o bagulho pra mim. Achei tudo fantástico. E nunca tinha me sentido mais feliz e preenchida. Acho que eles pensavam que talvez eu estivesse mentindo sobre nunca ter usado a “Malévola”. Me achavam engraçada.
 Devo pular muitos causos aqui, para contar e desmistificar essa plantinha tão poderosa. Sabia que os índios do Brasil, usam muitas ervas para seus rituais religiosos? Passei por todas as fases e efeitos do uso desse psicotrópico, de forma segura e divertida. Sim divertida, foi uma experiência incrível. Mas também para mim apavorante. Já tinha tido outras oportunidades de usá-la, mas preferi, fazer de uma forma mais “familiar” e próxima de casa. Lá na nossa Toca, senti no início que nada ia acontecer, a velha expressão “não tô sentindo nada”. Mas em algum momento, senti tanta vontade de rir, tanta vontade de rir, e sem nenhum motivo aparente. Do nada lembranças de coisas que tinha feito questão de esquecer voltaram a minha mente, no meu caso, memórias de coisas negativas que se passaram na minha infância. Só que agora, com meu estado de humor alterado para uma felicidade histérica, esses fatos negativos iam sendo transformados em seu contrário. Agora eles eram fatos felizes.
 Me senti muito poderosa, criativa e capaz de escrever belíssimas canções de amor que fariam todos serem enganados. Com o passar do tempo toda as minhas risadas, começaram a se tornar incontroláveis. Não via mais graça em nada e ainda assim, não conseguia parar de rir. Os meninos me observavam e falavam comigo, me perguntavam como eu estava me sentindo. Tem uma coisa que me deixou mais maravilhada nessa experiência, a sensação de empatia que se cria, é assim; você percebe o início da frase que o outro diz, perde o meio e você mesma preenche o final. Ou seja, você acredita que tudo o que o outro está falando é parte de você. Fica uma sensação de que eles são totalmente conectados a você, e você a eles. Até aqui tudo era magia e alegria, mas cheguei na fase da depressão, sim, no finalzinho do efeito, você começa a ficar triste. Dessa parte não gostei.
 Fiquei triste, e com o corpo pesado, e com a sensação que o tempo estava desacelerando. E a onda? A onda vinha. Até que veio a minha parte mais odiada e temida. A paranoia, estávamos em um monte muito bonito e de campo aberto, onde podíamos ver toda a exuberância do nosso bairro a luz do luar. E das luzes das casas a baixo. Comecei a olhar para os lados com os olhos arregalados, e ouvindo alguém chamar meu nome… Eles perceberam isso, e disseram: “nossa ela tá passando por tudo certinho”. Sim, eu era virgem. Me tranquilizaram, porque não tinha ninguém ali me chamando. “É o efeito que está passando, fica tranquila”. Eles foram verdadeiros gentlemans. E no final, me levaram para casa.
 Decidi que o uso da malvada não é para mim, porque não gostei de me sentir descontrolada e rindo sem saber exatamente o porque. Mas isso, com certeza, é uma das coisas que todos deveriam fazer antes de morrer. Te liberta. Bom, o Alain Delon, fica para outro dia porque já falei demais. E minha gata fantasma também.
 Eu tenho gatos mágicos, e você não.


Continua...

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