Alain
Delon, e meu Crush Zé Droguinha
Hoje
minha vontade é falar sobre meu vizinho maconheiro. Sim, os “zé
droguinhas” são muito conhecidos popularmente falando. Mas, por
experiência própria a meu ver são “gente de bem”. Geralmente
são pessoas de baixa renda, que trabalham em empregos massantes e
repetitivos, não possuem muita oportunidade de trabalhar em algo que
se sintam mais produtivos, e muito menos grana suficiente para pagar
uma terapia.
Pois
bem, eu me identifico muito com alguém assim. Preciso contar que
hoje recebi mais um sinal entre muito de que minha gata fantasma
permanece próxima de mim, me observando e protegendo. Por algum
motivo besta e fútil, como sempre, minha querida mamãe estrela de
hollywood, resolveu que vai regular o uso da máquina de lavar aqui
de casa. Uma grande máquina branca e totalmente automática, lava e
torce. No Brasil secadora é um luxo para poucos, se secam as roupas
no varal, assim se gasta menos energias limpas.
Agora
eu só queria saber qual a lógica disso, sendo que a máquina foi
feita justamente para facilitar e libertar a vida de todos os
envolvidos nessa história de usar roupa limpa. Higiene pessoal
também é saúde galerinha. Então, fiz o questionamento. A
resposta? “Você gasta muita água”. Pra começar eu sou feita de
água, e você também; 70% do meu e do seu corpo é água. O resto é
hipocrisia. Assim, minha conclusão é a seguinte; temos uma ditadora
aqui. A ditadora da lavagem de roupa da forma mais adequada e
“econômica possível”.
Sabiam
que existem muitas formas de limitar um ser humano? Mantê-lo usando
roupas sujas é uma forma eficaz. Por isso, no mesmo momento acionei
a patrulha do meu pai — avisei que lavaria roupa — e que o sabão
em pó estava acabando. Pronto, problema resolvido, e minha “amada
mãe de todos” e dona de “todo o amor do mundo”, voltou para as
sombras do vale da morte.
Sabe
aquele meu dom sombrio de atrair pessoas que querem me contar coisas
terríveis de sua vida? Houve um dia, a algum tempo atrás, quando
trabalhava de caixa numa dessas redes alimentícias, de serviço
extremamente angustiante, pelo alto grau de dificuldade em lidar com
o tipo de pessoas que as frequenta. Pessoas com muita fome e
irritação (por causa do trânsito), redes essas que ficam próximas
a rodovias. E porque a junção de fome; irritação; e lidar com a
investigação normal de uma operadora de caixa sobre a possibilidade
de ter recebido uma nota falsa, irrita qualquer um.
Como
se investiga se uma nota é ou não é valsa, desculpe falsa? Levante
ela em direção de alguma luz, natural ou artificial, para ver os
números e letras escondidos, as chamadas Marca D´água. Esfregue
seus dedos nela para sentir o alto-relevo em algumas das letras da
nota, como se você fosse cego, e tivesse que ler em braille. Apague
a luz do ambiente, para observar os números fluoresces, procure o
quebra-cabeça… e por aí vai. Nossas notas de Real, revelam a
natureza selvagem do brasileiro. Minha nota favorita é a da
onça-pintada. São muitos animais que representam toda a nossa
riqueza mística. Espero que esse leque de animais milionários não
acabe nunca. Apenas se for para homenagear o centenário do Mago
Violeta, eu tenho uma nota dessas na minha carteira. E ultimamente só
ela mesmo.
Tudo
isso, fez com que eu me perguntasse porque um rapaz muito
bem-vestido, e aparentando coesão espiritual, veio até meu caixa
com uma barra de chocolate na mão, e me disse enquanto eu passava
sua compra: “você acredita moça, que eu acabei de capotar meu
carro três vezes na rodovia e saí sem nenhum arranhão?” Ouvi
aquilo como todas as coisas estranhas que ouvia ali todo dia, as
pessoas geralmente associam dinheiro com algo sexual, e sempre
transformavam inconscientemente meu balcão do caixa numa cama de
dois amantes. Onde geralmente os segredos mais obscuros são contados
a venerada concubina que ele acabou de saborear, Bruna Surfistinha
que o diga. O que respondi foi: “Nossa, e o que você vai fazer
agora?”. Ele: “Vou esperar a Dersa (Desenvolvimento Rodoviário
S/A) vir, e ligar para minha namorada”. E foi o que ele fez. Fiquei
observando ele pela porta de vidro falando com sua amada. Achei fofo,
comia o chocolate cabisbaixo.
Mas
voltando ao meu vizinho, vou chamá-lo de Roberval para proteger sua
identidade secreta. É realmente alguém que transformou minha vida
para melhor. De um jeito estranho que só eu sou capaz de arranjar,
ele que sempre foi meu vizinho de esquina, nunca tinha se dirigido a
mim. Fui conhecê-lo nos corredores da minha faculdade. Acho que se
sentiu atraído pela minha habilidade na direção do meu fusca
bananinha. E puxou assunto comigo. Me dei bem com ele de cara,
geralmente me dou bem com geminianos, os meninos, não as meninas.
Preciso depois contar sobre uma geminiana que me fez ter vontade de
cometer um homicídio. Roberval gosta muito de papo, e está sempre
mudando de opinião, a real “Metamorfose Ambulante”, que o
querido Raul Seixas tanto diz que prefere ser.
Eu
sinceramente acho um pouco cansativo, as vezes preciso me afastar de
Roberval. Ele fala sobre tudo, mas não se aprofunda em nada. Tem
muito amigos, esses seus amigos que um dia ele me convidou para
conhecê-los. Achei que seria um rolezinho comum, mas não, foi
esotérico. Ele anda com dois meninos a tiracolo, um rapaz negro que
eu vou chamar aqui de Charlie, e outro rapaz mais feminino que eu vou
chamar de Freddie. Eles fizeram uma verdadeira operação médica
para me iniciar em algo que eu ainda era virgem. O uso da Cannabis
Sativa. Sim meus amigos, sou amante do reggae em toda a sua beleza.
Ele
e seus amigos arranjaram a maconha para mim, na boca de fumo mais
próxima. Em todo o mundo tem, não adianta se de fazer de santo.
Compraram biscoitos, suco e levaram água. Para eu comer antes e não
correr o risco de sofrer uma queda de pressão. Ou uma esquizofrenia
em mim ser desencadeada. Nos encontramos na encruzilhada aqui do meu
bairro, e fomos subindo a nossa Toca, a céu aberto, num local alto e
estratégico. Era alto o suficiente para que víssemos e não
fôssemos vistos, tínhamos verdadeiros móveis improvisados ali para
nosso conforto.
Assim,
de uma forma muito acolhedora, e como se estivéssemos em uma sessão
grupal de terapia. Eles batiam papo comigo, para saber quem eu era, o
que queria, e para onde pretendia ir. E bolavam o bagulho pra mim.
Achei tudo fantástico. E nunca tinha me sentido mais feliz e
preenchida. Acho que eles pensavam que talvez eu estivesse mentindo
sobre nunca ter usado a “Malévola”. Me achavam engraçada.
Devo
pular muitos causos aqui, para contar e desmistificar essa plantinha
tão poderosa. Sabia que os índios do Brasil, usam muitas ervas para
seus rituais religiosos? Passei por todas as fases e efeitos do uso
desse psicotrópico, de forma segura e divertida. Sim divertida, foi
uma experiência incrível. Mas também para mim apavorante. Já
tinha tido outras oportunidades de usá-la, mas preferi, fazer de uma
forma mais “familiar” e próxima de casa. Lá na nossa Toca,
senti no início que nada ia acontecer, a velha expressão “não tô
sentindo nada”. Mas em algum momento, senti tanta vontade de rir,
tanta vontade de rir, e sem nenhum motivo aparente. Do nada
lembranças de coisas que tinha feito questão de esquecer voltaram a
minha mente, no meu caso, memórias de coisas negativas que se
passaram na minha infância. Só que agora, com meu estado de humor
alterado para uma felicidade histérica, esses fatos negativos iam
sendo transformados em seu contrário. Agora eles eram fatos felizes.
Me
senti muito poderosa, criativa e capaz de escrever belíssimas
canções de amor que fariam todos serem enganados. Com o passar do
tempo toda as minhas risadas, começaram a se tornar incontroláveis.
Não via mais graça em nada e ainda assim, não conseguia parar de
rir. Os meninos me observavam e falavam comigo, me perguntavam como
eu estava me sentindo. Tem uma coisa que me deixou mais maravilhada
nessa experiência, a sensação de empatia que se cria, é assim;
você percebe o início da frase que o outro diz, perde o meio e você
mesma preenche o final. Ou seja, você acredita que tudo o que o
outro está falando é parte de você. Fica uma sensação de que
eles são totalmente conectados a você, e você a eles. Até aqui
tudo era magia e alegria, mas cheguei na fase da depressão, sim, no
finalzinho do efeito, você começa a ficar triste. Dessa parte não
gostei.
Fiquei
triste, e com o corpo pesado, e com a sensação que o tempo estava
desacelerando. E a onda? A onda vinha. Até que veio a minha parte
mais odiada e temida. A paranoia, estávamos em um monte muito bonito
e de campo aberto, onde podíamos ver toda a exuberância do nosso
bairro a luz do luar. E das luzes das casas a baixo. Comecei a olhar
para os lados com os olhos arregalados, e ouvindo alguém chamar meu
nome… Eles perceberam isso, e disseram: “nossa ela tá passando
por tudo certinho”. Sim, eu era virgem. Me tranquilizaram, porque
não tinha ninguém ali me chamando. “É o efeito que está
passando, fica tranquila”. Eles foram verdadeiros gentlemans. E no
final, me levaram para casa.
Decidi
que o uso da malvada não é para mim, porque não gostei de me
sentir descontrolada e rindo sem saber exatamente o porque. Mas isso,
com certeza, é uma das coisas que todos deveriam fazer antes de
morrer. Te liberta. Bom, o Alain Delon, fica para outro dia porque já
falei demais. E minha gata fantasma também.
Eu
tenho gatos mágicos, e você não.
Continua...
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