domingo, 2 de junho de 2019

Capítulo 6. de “Água Parada”

Precisamos Falar sobre Sofia, a Filósofa Autista

Vocês não tem sentimentos?

 A energia aqui caiu. Parece que minha gata fantasma anda perambulando em volta de mim. É certo que está chovendo, e geralmente isso pode causar algumas quedas de energia. Mas acontece que foi num momento muito específico, quando minha “amada mãe de todos”, resolveu tirar um momento do seu glamoroso dia para me criticar. É meus amigos, essa querida não dá trégua nem aos finais de semana. Porque não tira umas férias e nos deixa em paz, não é mesmo? Mas assim que ela abriu a boca, a luz do ambiente se apagou.
 Ontem vocês ficaram sabendo que se a maconha for legalizada no Brasil, minha vida vai continuar seguindo o mesmo fluxo, nem de casa eu vou sair (a não ser que seja para ir a Amsterdam, sou metida). Tem coisas que parecem que não foram feitas mesmo para a gente aqui da terra das bananas. Até porque para que isso aconteça realmente por aqui, tem que haver um controle médico sério sobre quem pode ou não pode fazer uso. Sim, dependendo da pessoa, se ela tiver alguma tendência hereditária a esquizofrenia ela pode sim fazer a viagem, e não voltar nunca mais.
 Eu fui na fé para essa experiência, porque conheço meu histórico familiar, e sabendo que os índios usam substâncias muito mais perigosas em seus rituais religiosos, que aprendi em Hogwarts, fiquei sim curiosa. O que posso fazer? A curiosidade até o momento não matou o gato. Sigo estável.
 Hoje, preciso falar da menina Sofia. Uma garotinha com lindos e cacheados cabelos cor de mel, pele cor de canela, olhos amendoados e autista. A conheci fazendo os estágios remunerados que fiz durante minha faculdade. Preciso deixar claro aqui que ainda não finalizei, se quisesse poderia tirar meu diploma de Bacharel, mas quero um dia ter minha própria clínica psicanalítica, portanto ainda me faltam alguns estágios obrigatórios. E para isso, sei que não posso parar de estudar. Vocês sabiam que bons psicólogos nunca param de estudar? Mesmo quando queremos não dá. Para onde você olha ou vai, existem pessoas e seus comportamentos curiosos.
 Devo dizer que um dos motivos pelos quais agora não prossigo meus estudos, é a situação atual do país. A direita extrema desse país, achou que seria uma boa ideia eleger o Voldemort para Presidente da República. Nada contra ele, mas acho que já está mais do que obvio, que ele está para o país, assim como eu estou para a maconha. Não está dando match. Então sigo esperando esses tempos sombrios passarem.
 Sofia é uma aluna de uma escolinha de primário, muito célebre e de renome daqui da minha cidade. Quando nos conhecemos a reação dela foi de total chateação. Não gostou de mim, e demonstrou isso de uma forma muito simples. Me viu, me olhou por dois segundos, e chorou. Tenho uma vizinha autista um pouco mais velha que a Sofia, e que aparenta ter um grau mais elevado do que ela de autismo, já é uma adolescente, e é muito mais infantilizada que a Sofia. Todo sia vejo ela voltando da escola pela minha varanda. Ela, vou chamar de Lavander; passei apenas uma semana a acompanhando durante sua rotina escolar (existe um Centro de acompanhamento de pessoas com deficiência já estabelecido em Atibaia), e devo dizer que foi barra pesada.
 Lavander é muito inteligente, mas assim como eu tem problemas com pessoas que querem ditar o que ela deve ou não fazer. Tivemos muitos embates. Mas voltando a Sofia, ao longo do dia ela foi se habituando a mim. Sofia recebe acompanhamento psicológico, psicopedagógico, e qualquer outra coisa que ela queira aprender dentro do Centro, e fora também. O programa de estágio que eu estava ligada era um dos braços de todo esse processo.
 Viver com Sofia, para mim no início pareceu que seria um mar de rosas, porque já estava a dois anos trabalhando com acompanhamento de crianças em sala, e já tinha passado por muitas crianças baderneiras. No bom e no mau sentido. Sofia era linda e delicada. Uma bonequinha real, muito esperta, e aparentava só ter problemas mais sérios com a sua comunicação verbal. O que só prova que quanto mais cedo é o tratamento, melhor é a vida social do autista. São realmente aptos a estar no mercado de trabalho. Sofia era tão meticulosa nas suas tarefas, que isso causava certa inveja entre seus coleguinhas de sala. Tive muitos dias para constatar tal fatalidade. E a isso, se junta ainda ao fato de que ela tinha uma aparência muito fotogênica.
 Pude constatar evidências dessa inveja prejudicial a menina, observando seu desempenho no parquinho da escola. Como a maioria dos autistas Sofia tinha suas manias, e umas delas era evidente também no parquinho. Ela ficava apenas em um brinquedo do parque, passava quase trinta minutos subindo e descendo no mesmo castelo de plástico; subia as escadas e descia no escorregador. Fiquei me perguntando se isso se devia mesmo ao fato de simplesmente ela ser autista. Sabe aquele ditado, “quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha?”. Batia o sinal e ela corria para aquele brinquedo, e de lá era difícil tirá-la no final do intervalo.
 Alguns meninos iam brincar com ela, mas as outras meninas corriam e tratavam de tirar de perto dela qualquer amiguinho que se aproximasse. Achei aquilo curioso. E anotei no meu caderninho. Passado os dias com a criança percebi que ela amava música, principalmente as musiquinhas que a professora cantava em sala de aula. Repetia facilmente o que ouvia, como um gago que consegue falar magicamente, quando usa a melodia de uma música. Ouvi-la, era para os fortes; percebi isso com o seu desenvolvimento ao passar do tempo. Ela cantava cada dia mais alto, e sua fala não era compatível com sua idade, era realmente a voz de um bebê desengonçado.
 Isso deixava as professoras desestabilizadas (e eu também) e ela percebia isso, então as vezes se calava no convívio escolar. Pois bem, não a progresso sem algum sofrimento não é mesmo? Me muni das músicas infantis que se cantam aqui para as crianças, e passei a usá-las como arma de combate. No intervalo acompanhava Sofia no brinquedo, e cantando, (não sou nenhuma Lady Gaga) sugeria a ela que seria divertido experimentar os outros brinquedos do parque. O parque da escola centenária, é enorme, tem vista para as ruas da cidade, é cercado, e muito seguro. Logo a frente dele tem o cemitério “São João Batista”, que também faz parte da história da cidade. Estudar lá era um privilégio não só para a Sofia, como para todos os outros alunos. Assim ficava inquieta em ver a Sofia perder tantas boas experiências, e não desenvolvendo sua psicomotricidade (viu como eu sou inteligente?).
 Com música tudo flui com mais facilidade, ela passou a ir até os outros brinquedos. E nossa cantoria também atraia as outras crianças das outras classes, as vezes só iniciava a brincadeira, e elas mesmas davam prosseguimento. Eu ficava cada dia mais feliz com as mudanças de rotina, e as conquistas de Sofia. Acontece que num dia fatídico, tudo se esclareceu melhor para mim; o motivo pelo qual Sofia ficava mais no canto, como a Baby de Dirt Dancing. Conversava num banco do parque com a professora da garota, num local que podia ver e ser vista por Sofia, agora que éramos amigas ela confiava em mim e se sentia segura com a minha presença. Quando vi de longe uma coleguinha de classe, puxar Sofia de um brinquedo pelos cabelos. Sim. As professoras presentes ficaram com tanta vergonha, que fingiram que não viram. Mas eu que sei, que é de pequeno que a porca torce o rabo, relatei no meu caderninho, e avisei o Centro de Apoio.
 Não culpo a menina, acho que as crianças de comportamentos ruins só estão imitando os defeitos dos pais. Como a pequena delinquente é filha de gente importante da cidade, demorou para que alguma providência fosse tomada. Mas vocês percebem uma coisa muito simples, mas ao mesmo tempo tão importante? Autistas não circulam em determinados locais não por uma dificuldade deles em lidar com certas situações, mas sim por bloqueios pessoais, das pessoas que se dizem “normais”.
 O ápice da minha curta história com Sofia, foi quando eu e ela conversávamos, sim, cheguei a um ponto de conseguir conversar com ela, com gestos e sons, e as cantigas infantis. Que eu perguntando sobre seu dia, como ela estava se sentindo, o que achava do tempo, essas coisas… ela disse para mim com todas as letras: “C a p e t a”. Fiquei encantada, ela nunca me tinha dito qualquer palavra tão perfeitamente e com um tom tão de acordo com sua idade. Depois fiquei sabendo que pessoas muito religiosas apontavam pessoas autistas desde a antiguidade como sendo algum tipo de manifestação satânica. Eu tive a sorte de conhecer Sofia, que a meu ver era um anjo, uma filósofa por natureza.

Continua…

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