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Teorias de Reencarnação de Gatinhos
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| Thanos pensando em usar sua manoplinha do infinito. |
Alguém
sempre vai ter que lavar a louça, limpar o chão, pôr a roupa suja
na máquina, enfim, essas coisas. Robôs domésticos, no futuro podem
se voltar contra nós. Quanto mais humanos eles parecerem, menos vão
querem limpar a própria sujeira, ou a sujeira dos outros. O ser
humano pensa que também não é bicho. Meu gato Thanos, como seu
nome já diz, é a personificação da morte. Acredito que ele foi o
primeiro a pressentir a segunda morte da minha gata fantasma. Como já
disse, fiz uma nova configuração para que ela voltasse a vida.
Funcionou, mas agora seu corpo já não era mais o mesmo. Era mais
frágil e falho. Tinha as patas dianteiras brancas, como se usasse luvas, as
perninhas traseiras meio tortas, e pelagem mais cheia. Era linda, mas
sua deficiência a colocava em situação de risco. Lembrava sua mãe Luna com seu rosto de caveirinha, mas só na aparência.
Era
alegre, astuta, e aprendia muito rápido. Aos poucos pareceu ir se
lembrando de mim e da sua vida anterior, e ao mesmo tempo ficando com
raiva de mim, porque pareceu que eu deixei que ela morresse. Com o
tempo, assim como eu, percebeu que eu não era a culpada do seu desencarne. A ideia é
fazer parecer que ninguém é mesmo culpado de nada. A função da
fiscal da vida alheia é sempre ganhar mais tempo, como um viciado
mesmo. Alguém que pensa que a sua hora de morte nunca vai chegar.
Ela
ficou encantada com os outros gatos da casa, gato solitário não
dura muito tempo, gateiros sabem. Ficou especialmente impressionada
com meu Maine Coon, que eu adotei de uma moça que não tinha mais
condições de mantê-lo. Hagrid (porque ele é gigante, entendeu?),
é muito calmo, e as vezes eu tenho a sensação de que ele entende o
que eu digo. É enorme mas é um tonto, se deixar os outros gatos
intimidam ele. Chegou muito gordo, como aqui ele pode circular no
jardim, foi emagrecendo e ficando mais ágil. Mantenho contato com a
antiga dona, e descobri que ele já foi atropelado, teve toda a
mandíbula reconstruída, e se você abrir a boca dele vai ver um
pino que parece um parafuso.
Acredito
que é por isso que ele é tão arrogante, tudo ele te morde. Mas é
muito fofo, e não tem como não gostar. Ele é muito fotogênico.
Luvinha (Psiquê), coloquei esse nome nela, achava graça em subir na
mesa de centro da sala, e bater na cabeça dele. Tenho fotos para
provar que ela ficou impressionada com o tamanho dele. Quando morreu
pela segunda vez, sim ela morreu de novo, não por negligência
minha, mas porque eu percebi que existe uma assassina a solta. Alguém
sempre em busca de novas aquisições para o seu “guarda-roupa
colorido”.
Mantive três dias de luto por essa nova perda em minha
vida de tragédias. E como eu aqui já falei, ela voltou em forma
fantasmagórica. Quando ela se foi do mundo terreno, chamei meu pai,
e fiz com que ele me ajudasse a enterrá-la. Sua cova fica na frente
da minha casa, ao lado do local que eu estaciono meu fusca bananinha.
Seu
fantasma vinha toda vez que eu recolhia os gatos pela tarde, Hagrid
que era o mais atormentado por ela em vida, passou a se recusar a
entrar na casa. Como se dissesse, “se ela entrar eu não entro”.
Ele sempre foi nojento com comida, não come nenhum tipo de patê,
mas nem oferecendo a ração favorita dele, ele queria entrar.
Tive
que fazer algo que não queria, pedir que ela não entrasse. Sim, eu
queria que minha gata morta entrasse, com o tempo também cheguei a
conclusão de que isso é antinatural. Ficava repetindo em
pensamento: “pode entrar todo mundo, menos a Luvinha que está
morta”. Todos entraram, menos a Luna que ficou andando em volta da
casa, como se tentasse despistar a gata morta, ela é muito boa em monitorar o perímetro.
Perceba
que ao mesmo tempo que eu achava tudo isso que estava acontecendo na
minha frente interessante e engraçado, porque afinal de contas era só uma gatinha, também era algo que me dava medo. Comecei
a me arrepender de pedir para ela voltar. Minha casa tem grandes
janelas e portas de vidro, meus gatos mesmo dentro de casa, ficavam
olhando para fora como se ela estivesse do outro lado pedindo para
entrar.
Eles
olhavam para fora e para mim, com aqueles grandes olhos de pupilas
dilatadas. E que assim parecem mais humanas quando o dia escurece.
Passaram a pegar objetos dentro da casa, os usando para enviar
mensagens para mim. As mensagens eram feitas só para mim, e eu
entendia tão bem, que comecei a ficar com medo. Tentei criar teorias
sobre o que, ou quem seria esse bichinho que foi enviado a mim. O
que queria? Porque eu me identificava tanto com ela? E sentia tanto a
sua falta? Como me conhecia tão bem, a ponto de conseguir se
comunicar comigo por meio de objetos da minha casa?
Quando
constatei seu novo óbito, tentei me consolar; "bom, pelo menos agora
ela está livre da ameaça fantasma da garota troféu de ouro". Ainda
tenho esperança de que um dia ela volte. Era interessante como mesmo
em um corpo diferente ela ainda mantinha os mesmos comportamentos.
Meus vizinhos mineiros criam galinhas na rua, então como antes -
quando ela tinha um corpo mais atlético (ainda era a gata rajada
Psiquê) - passava o dia tentando comer alguma galinha. Luvinha
também passava o dia observando as galinhas, e imaginando formas de
comê-las. Foi num desses momentos que a "senhorita ninguém agiu". Espero que um dia receba o que merece.
Vocês
não tem noção de como é ruim perder um gato. Cada gato é único,
e insubstituível.
Continua...

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