quarta-feira, 5 de junho de 2019

Capítulo 9. de “Água Parada”

Novas Teorias de Reencarnação de Gatinhos

Thanos pensando em usar sua manoplinha do infinito.


 Alguém sempre vai ter que lavar a louça, limpar o chão, pôr a roupa suja na máquina, enfim, essas coisas. Robôs domésticos, no futuro podem se voltar contra nós. Quanto mais humanos eles parecerem, menos vão querem limpar a própria sujeira, ou a sujeira dos outros. O ser humano pensa que também não é bicho. Meu gato Thanos, como seu nome  já diz, é a personificação da morte. Acredito que ele foi o primeiro a pressentir a segunda morte da minha gata fantasma. Como já disse, fiz uma nova configuração para que ela voltasse a vida. Funcionou, mas agora seu corpo já não era mais o mesmo. Era mais frágil e falho. Tinha as patas dianteiras brancas, como se usasse luvas, as perninhas traseiras meio tortas, e pelagem mais cheia. Era linda, mas sua deficiência a colocava em situação de risco. Lembrava sua mãe  Luna com seu rosto de caveirinha, mas só na aparência.
 Era alegre, astuta, e aprendia muito rápido. Aos poucos pareceu ir se lembrando de mim e da sua vida anterior, e ao mesmo tempo ficando com raiva de mim, porque pareceu que eu deixei que ela morresse. Com o tempo, assim como eu, percebeu que eu não era a culpada do seu desencarne. A ideia é fazer parecer que ninguém é mesmo culpado de nada. A função da fiscal da vida alheia é sempre ganhar mais tempo, como um viciado mesmo. Alguém que pensa que a sua hora de morte nunca vai chegar.
 Ela ficou encantada com os outros gatos da casa, gato solitário não dura muito tempo, gateiros sabem. Ficou especialmente impressionada com meu Maine Coon, que eu adotei de uma moça que não tinha mais condições de mantê-lo. Hagrid (porque ele é gigante, entendeu?), é muito calmo, e as vezes eu tenho a sensação de que ele entende o que eu digo. É enorme mas é um tonto, se deixar os outros gatos intimidam ele. Chegou muito gordo, como aqui ele pode circular no jardim, foi emagrecendo e ficando mais ágil. Mantenho contato com a antiga dona, e descobri que ele já foi atropelado, teve toda a mandíbula reconstruída, e se você abrir a boca dele vai ver um pino que parece um parafuso.
 Acredito que é por isso que ele é tão arrogante, tudo ele te morde. Mas é muito fofo, e não tem como não gostar. Ele é muito fotogênico. Luvinha (Psiquê), coloquei esse nome nela, achava graça em subir na mesa de centro da sala, e bater na cabeça dele. Tenho fotos para provar que ela ficou impressionada com o tamanho dele. Quando morreu pela segunda vez, sim ela morreu de novo, não por negligência minha, mas porque eu percebi que existe uma assassina a solta. Alguém sempre em busca de novas aquisições para o seu “guarda-roupa colorido”. 
 Mantive três dias de luto por essa nova perda em minha vida de tragédias. E como eu aqui já falei, ela voltou em forma fantasmagórica. Quando ela se foi do mundo terreno, chamei meu pai, e fiz com que ele me ajudasse a enterrá-la. Sua cova fica na frente da minha casa, ao lado do local que eu estaciono meu fusca bananinha.
 Seu fantasma vinha toda vez que eu recolhia os gatos pela tarde, Hagrid que era o mais atormentado por ela em vida, passou a se recusar a entrar na casa. Como se dissesse, “se ela entrar eu não entro”. Ele sempre foi nojento com comida, não come nenhum tipo de patê, mas nem oferecendo a ração favorita dele, ele queria entrar.
 Tive que fazer algo que não queria, pedir que ela não entrasse. Sim, eu queria que minha gata morta entrasse, com o tempo também cheguei a conclusão de que isso é antinatural. Ficava repetindo em pensamento: “pode entrar todo mundo, menos a Luvinha que está morta”. Todos entraram, menos a Luna que ficou andando em volta da casa, como se tentasse despistar a gata morta, ela é muito boa em monitorar o perímetro.
 Perceba que ao mesmo tempo que eu achava tudo isso que estava acontecendo na minha frente interessante e engraçado, porque afinal de contas era só uma gatinha, também era algo que me dava medo. Comecei a me arrepender de pedir para ela voltar. Minha casa tem grandes janelas e portas de vidro, meus gatos mesmo dentro de casa, ficavam olhando para fora como se ela estivesse do outro lado pedindo para entrar.
 Eles olhavam para fora e para mim, com aqueles grandes olhos de pupilas dilatadas. E que assim parecem mais humanas quando o dia escurece. Passaram a pegar objetos dentro da casa, os usando para enviar mensagens para mim. As mensagens eram feitas só para mim, e eu entendia tão bem, que comecei a ficar com medo. Tentei criar teorias sobre o que, ou quem seria esse bichinho que foi enviado a mim. O que queria? Porque eu me identificava tanto com ela? E sentia tanto a sua falta? Como me conhecia tão bem, a ponto de conseguir se comunicar comigo por meio de objetos da minha casa?
 Quando constatei seu novo óbito, tentei me consolar; "bom, pelo menos agora ela está livre da ameaça fantasma da garota troféu de ouro". Ainda tenho esperança de que um dia ela volte. Era interessante como mesmo em um corpo diferente ela ainda mantinha os mesmos comportamentos. Meus vizinhos mineiros criam galinhas na rua, então como antes - quando ela tinha um corpo mais atlético (ainda era a gata rajada Psiquê) - passava o dia tentando comer alguma galinha. Luvinha também passava o dia observando as galinhas, e imaginando formas de comê-las. Foi num desses momentos que a "senhorita ninguém agiu". Espero que um dia receba o que merece.
 Vocês não tem noção de como é ruim perder um gato. Cada gato é único, e insubstituível.


Continua...

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