sábado, 8 de junho de 2019

Capítulo 12. de “Água Parada”

A Crise Mundial do Trânsito Amoroso Livre

 Galinhas comem escorpiões. Depois de ser picada por um na minha residência, tomei conhecimento disso. Descobri para que servem as galinhas e os galos que passeiam pelo bairro. Talvez se aquelas galinhas tivessem feito sua limpeza na frente da minha casa naquele dia, eu não teria sido picada. Mas também, não teria tido a revelação que tanto precisava; Alain Delon não era a pessoa que me faria feliz, aquela que faria com que eu me sentisse amada e segura. E eu, com certeza, também não seria a pessoa capaz de “segurar a barra que é gostar de você”, como bem nos explica os pagodeiros do “Raça Negra”. Sim, porque amar é para os fortes.
 E sempre é bom dar uma olhada no signo do desejado, ou desejada para ver se vale mesmo a pena, deitar a sombra de alguém. Porque eu digo isso? Porque o amor deixou de ser uma forma de gozar a vida o mais leve e mais prazerosa possível, para se tornar um jogo de poder, uma forma de alcançar objetivos que por outros meios não me seria possível. A culpada disso não é a nossa “estrela maior”, não, muito pelo contrário, ela conseguiu um feito que poucos conseguem. Se casou com quem amava, e ainda por cima alguém que tinha posses materiais, havia um pequeno adendo de que era um pouco louco, mas vá lá, por amor real se suporta tudo.
 A escolha do amado(a) deve ser da seguinte forma; amar aquele que eu consigo dar conta, dar conta no sentido de conseguir lidar com o pior, e o melhor daquela pessoa. Ninguém é perfeito, e ninguém deveria ser a imagem daquela que pode pular qualquer etapa, ou pessoa (obstáculo) para conseguir o que se quer. Por muito tempo, o “portal de almas sombrias”, foi referência de amor romântico para aqueles que não entenderam o verdadeiro conceito, e função do uso de sua imagem. Eu sei que infelizmente, ela foi usada como arma assassina, e continua sendo. E ela mesma foi vítima disso. Mas devo explicar-lhes também uma coisa, aqui essa arma letal não funciona. As mulheres daqui gostam muito de salões de beleza, não importa a cor do cabelo da mocinha do filme, é só ir no cabeleireiro e pintar igual (ou descolorir), aqui todos querem ser protagonistas.
 Mas agora pensando onde “a terra das bananas” entra nisso tudo? Na equação do amor. Ora, na solução desse problema milenar é óbvio. Somos um país feito de imigrantes, pessoas que foram consideradas inadequadas para estarem em convívio social, portanto, exatamente o oposto daqueles que vivem “em sociedade”. Acontece que nesse movimento, aqui se formou uma sociedade com valores totalmente as avessas do que os outros continentes têm como crença. Nossos três fundadores nos deram de bandeja a chave para todo tipo de relacionamento, nos já nascemos sabendo como resolver o dilema mais complicado que o mundo já viu. Como encontrar o meu amor?
 Talvez por isso recebemos tantas críticas, e somos alvo de tantas manifestações rancorosas, somos bons em fazer bons casamentos. Casamentos reais, e até os culinários, misturando coisas que para muitos não seria uma boa combinação apetitosa. Ingredientes contrários costumam ser muito excitantes. Daqui saem exatamente aquilo que você mais deseja, e ainda por cima com pimenta para ficar mais gostoso e duradouro. Dos nossos pratos, não tem como enjoar.
 Aqui essa é a única pergunta que realmente importa, é isso que estamos correndo atrás, correndo atrás das circunstâncias perfeitas para um “encontro romântico ideal”. Se existe mesmo essa coisa do “par perfeito”, é possível que o par de alguém aí do mundo que esteja me lendo nesse momento, esteja aqui no meu país. Impossibilitado de ir ao encontro do seu, por motivos financeiros, ou porque “a mãe de todos”, deturpou a mente do coitado(a) em questão e ele finalmente se viu; casado com a pessoa errada.
 Esse é um erro, que ninguém em nenhuma condição econômica ou social está livre, “se apaixonar pela pessoa errada”, e sofrer as terríveis consequências na sua vida por isso. Eu mesma sou um bom exemplo disso, já deu tanta coisa errada que começo a pensar que estou procurando no continente errado. Porque a maior (e talvez a única) pergunta para qualquer mulher no Brasil é sempre essa; “quem é o pai dos meus filhos”?
 Vejo que pelo mundo também não é diferente, as pessoas estão perdidas. Se casam e tem filhos quando ainda são muito ingênuas, e quando finalmente olham para trás não tem mais como consertar a burrada, porque o tempo já passou, e ainda podem haver novas pessoas envolvidas. Os fundadores desse país viveram o primeiro triângulo amoroso que se tem conhecimento na nossa história, as claras e aos olhos de todos, era um escândalo (nós gostamos de escândalos). Se houvessem canais de fofoca naquele tempo, eles seriam notícia de capa.
 Das duas fundadoras o que posso dizer é que elas foram quase que cúmplices por um tempo. Mas a partir do momento que a esposa percebeu que não era apenas um casinho qualquer, aí sim, o sofrimento se tornou real. Tivemos um trio fundador que nos ensinou a arte de encontrar seu amado. Agora você, que já tentou de todas as formas, e com vários tipos de pessoas, e não deu match, é possível que seu amado não esteja assim tão perto. E mesmo que você passe horas na academia esculpindo seu corpo, pode ser que isso não dê uma garantia de que você vai encontrar alguém para amar e ser amado. Você vai ficar muito saudável fisicamente, mas a vida vai se tornando cada vez mais cinza e sem graça.
 O amor é o maior quebra-cabeça e mais complicado jogo de estratégia, que você possa um dia imaginar em resolvê-lo; são muitos personagens, com tantas características diferentes, e que estão sempre aprendendo com seus erros, que parece quase impossível que você resolva sozinho, e encontre a peça que encaixa na sua. Mas uma dica importante é, ouça, sem preconceitos, quando você descobre o que as pessoas realmente desejam é sempre uma surpresa agradável. Todo mundo é muito esquisito. Ninguém entra em padrão nenhum. E isso não é terrível de se saber, pelo contrário, é libertador. Você não perde mais seu tempo competindo com ninguém. Como o mago negro já nos contou; “aquilo que é seu, vem até você”.
 Não a corpo escultural que resolva o problema a longo prazo da falta de uma boa conversa, alguém que você olhe, e não sinta necessidade de se defender o tempo todo, alguém que te deixe mesmo confortável. Nem todos aqui podem ir até o seu amor que foi separado há muitos anos por “casamentos hierárquicos”. Mas o tempo cura tudo, e a cada ano o “transito de amor livre” se torna uma realidade. Aceitem que dói menos. A gente não consegue ir até eles, mas eles estão vindo até nós. Como um filósofo nacional já disse: “eu me fortaleço é na sua falha”. A gente só precisa esperar.

Continua...

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