O Gato de Schrödinger
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| Ele está vivo, ou está morto? |
Eu vi, eu vi uma superposição, e continuo vendo. Todo dia minha gata fantasma se manifesta para mim, e para os membros da minha família. Como eu sei disso? Vejo os efeitos da sua presença, no comportamento dos meus outros gatos. Eles se comportam no meu jardim e dentro da minha casa, como se ela ainda estivesse aqui, esperando o momento e um meio de voltar a estar entre os vivos.
Quando eu era criança tinha muito medo de gato, tive uma vizinha que gostava de dar banho nos seus, ela tinha muitos. A casa da família dela era enorme, e tinha muitos quartos, eu a invejava porque sempre tive que dividir meu quarto com minha irmã, e ela não. O nome da vizinha era Susannah, era bonita, tinha uma aparência de modelo da Victoria Secrets. Magra, alta, cabelos chocolate reluzentes, e pele amendoada. Os gatos dela não gostavam desses cuidados, não sei porque…Era uma gritaria, bufos e grunhidos, sem precedentes. Não se sabia se eles estavam acasalando, ou sendo engolidos por uma cobra.
Então foi assim que meio que associei gatos a algo perigoso, ainda me lembro dos gritos. Susannah era muito maternal, além de cuidar de seus inúmeros gatos, sempre convidava a mim e minha irmã para almoçar ou tomar café da tarde na sua casa. Gostava de ir lá e comer a batata frita em rodela que ela fazia para a gente. Não é estranho que a comida de ninguém é igual? Até hoje nunca comi nada parecido com o que a Susannah fazia para a gente, tinha um tempero só dela.
Pois bem, terráqueos. Antes da invenção da internet já passamos por um tempo onde estávamos muito mais conectados. Realmente próximos, ninguém precisava pegar um balão, um avião (com as honras do inventor Alberto Santos Dumont), ou um navio para se encontrar com coleguinhas em outro continente. O negócio era simplesmente ir a pé. A terra habitada ainda era – não era chamada nem conhecida –, porque ninguém falava sobre isso (acho eu), mas era uma Pangeia. Ou seja, todos os continentes eram grudadinhos num só. Todo mundo bem pertinho e a fim de circular pelo parquinho. O que foi, o que muitos habitantes daquele continente enorme e cheio de feras místicas fizeram. Sim eu estou falando do que hoje conhecemos como a África. Nosso fóssil Luzia que passou por maus bocados sabe bem disso.
Mas voltando a Susannah e nosso grande “Mago Negro”, não tem como derrubar a Torre Negra, ela é infalível, e está no inconsciente de todos aqui que leem as obras dele. Mas a gente gosta de ver daqui, vocês tentando conseguir. Preciso falar sobre minha gata fantasma; da primeira vez que ela morreu, senti necessidade de tomar precauções sobre sua prematura morte. Quando ela ainda era Psiquê, a gata rajada, que simplesmente sumiu; apenas soube da sua morte de forma paranormal, porque não cheguei a ver nenhum cadáver. Mas segui tendo fé de que um dia ela ia voltar. Como já disse, acordava pensando nela e ia dormir pensando nela também. Como em uma paixão secreta.
Assim sendo resolvi tomar providências. Entrei numa rede social em busca de novos felinos para minha proteção espiritual. Achei um casal que estava doando dois filhotes. Um rajado e com patas e peito branco, e outro preto e branco. Esse segundo me chamou muito a atenção, porque ele parece ter um bigodinho, inicialmente ia ficar só com ele, mas o casal me convenceu a levar os dois, porque eles eram muito ligados um ao outro (e o casal parecia desesperado para se livrar deles).
Enquanto escrevo isso, fui brutalmente interrompida por minha amada mamãe Barbarella, mais uma vez obcecada por limpeza. Limpeza é bom, mas também tem hora, se já passou das seis da tarde, e ainda tem alguém incomodada com qualquer coisa que seja relacionada a “organização”, pode ter certeza que a senhorita classe e compostura, está tentando fugir de algum tipo de união carnal. Se não gosta, porque se casou? Fiquei rezando baixinho: “Por favor minha gata protetora, me ajude, e faça com que essa obsessão por mim acabe de uma vez por todas, que essa obsessão por mim deixe de existir, que essa obsessão por mim acabe...”
Voltando aos meus gatos, trouxe os dois para casa e os chamei de Hypnos – para o rajado que dorme em qualquer lugar, até dentro de vasos de planta – e Thanos – porque tem mania de abrir ralos de pia e de banheiro, e beber a água podre de lá de dentro. Os irmãos; responsáveis por guardar meu sono, depois de entrar em contato de forma tão violenta com a morte. Depois deles, apareceu uma outra senhorita, do nada, aqui na esquina da minha casa. Acho que foi algum tipo de conjunção astral, que fez os três se juntarem na empreitada de conjurar de novo minha gata negligenciada, em um ambiente que pudesse torná-la menos a mercê de novas mortes. Como uma família gatal, todos os gatos são mestiços. Luna, está eu devo dizer que é a minha favorita, ela é linda.
Luna ainda era uma adolescente quando apareceu aqui, tem pelos negros, peito branco, e a ponta de suas patas é branca, até parece que ela usa pequenas luvas que só cobrem a ponta dos dedos. Olhando para ela, é impossível não associá-la com algum tipo de caveira.
Observe minha teoria, acredito que os gatos estão meio vivos, e meio mortos. Eles são os únicos que conseguem estar em qualquer uma das duas dimensões, e ainda assim enxergar todos os envolvidos na festa da estranheza. Estando ou não com a energia que flui da vida, que acredito que vem fundamentalmente da água (estranhamente felinos costumam beber pouquíssima água, o que pode facilitar que eles tenham infecções urinárias, nesse caso leve eles imediatamente ao veterinário), ainda sim eles podem permanecer próximos ao seu dono, se ele realmente desejar com bastante força.
No meu caso acendendo três velas, por três dias depois de sua morte. Independente de qualquer experimento científico, dentro ou fora de qualquer caixa, os gatos já estão vivos e mortos. Não se sabe se sua alma está ou não dentro do corpo dele, está um pouco dentro e um pouco fora, como que sobrepostas. Talvez eles ronronem tanto para colocar tudo lá dentro em movimento, e manter a alma presa no seu frágil corpinho. Além de gostar do aconchego de caixas que fazem um holding muito humilde (comentado pelo senhor Winnicott), para essa integração dos bichanos. Como um celular, no modo silencioso.
Talvez o que mantenha a alma dos seres humanos presos dentro do seu corpo, é a grande quantidade de água acumulada, nesse corpo que aparenta ser o mais evoluído do reino animal. O que é diferente em qualquer gatinho observável, e não precisa matar nenhum para chegar a essa conclusão. Explica essa aí Albert Einstein; eu tenho um fantasma de gato, que vai atrás de mim para todo lugar que eu vou. Gatinhos estão em todas as realidades, observáveis pelo olho humano ou não. A natureza é perfeita em toda a sua estranheza, e para mim, e meus gatinhos, todos esses cientistas só estão tentando provar algo que todas as pessoas desse lindo planetinha já sabem inconscientemente. O que é? Eu decido a realidade do que está acontecendo quando estou sendo observada. E tudo parece normal...
Continua...

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