quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Acho Que Eu Não Superei



 Eu tô só o Júpiter Maça, muito nostálgica. Charlie, ele não saí de mim não importa o que eu faça. Charlie Ouranos Brown, nunca falei muito da procedência do meu ex. O dito cujo veio de Florianópolis, filho de um Inglês com uma Brasileira. Tem aquela aparência de adolescente eterno mesmo já adulto. Quando eu o conheci pensei: "Que garoto feio". Com o tempo achei sua esquisitice linda. Porque ele é esquisito, nunca deixou de ser. Marcou um jantar no mesmo lugar que a gente se conheceu em São Paulo, um bar-restaurante grudento, onde todo mundo esbarra em todo mundo e ninguém liga pra ninguém. Nosso tipo de lugar favorito. 
 Sempre fomos um casal que se tivesse no lugar errado chamaria muita atenção, nossa pele não combina, nossa "vibe", palavra que eu não gosto é bem contrária. Era muito comum as pessoas acharem que nós eramos primos. Ninguém olhava e dizia: "que casal bonito". Sempre um estranhamento constrangedor, por isso escolhemos esses lugares furrecas pra conversar. E beber, com ele eu bebo. Não me dá sono, não entendo a mágica disso, quando bebo sozinha a única coisa que penso é em dormir. Mas os papinhos loucos dele sempre me mantiveram acordada. E dessa vez não foi diferente.
 Lá vou eu de volta a 2013. No Bar, "Um Lugar do Caralho", claramente inspirado no clássico do Júpiter: 


 Eu estudava Relações Internacionais, e ia com a minha turminha da zoeira no final de semana falar bobagem e reclamar da vida. Nessa época Rafaela Chateaubriand era minha amiga, estudava moda, e era bem menos patricinha como é hoje. Não nos reaproximamos porque ela passou a me fazer sentir estúpida quando estou com ela. A Rafaela virou um gatilho pras minhas crises existenciais. Perguntas simples, "de onde vim, para onde vou",  "o que vou fazer da vida", se tornam um inferno na minha cabeça, que me faz pensar em tomar clonazepam, toda vez que ela está presente. Mas enfim, em 2013 isso não era um problema, ela era presença constante, e estava junto quando avistei, esse etezinho que me cativa tanto até hoje, mesmo depois de divorciados.
 Eu bebia minha espanhola de sempre, e a Rafaela com seu Champanhe para parecer mais elegante do que realmente era. E aquela bagunça, gente falando uma por cima da outra, música do Cazuza e da Bebel tocando de fundo na balburdia. Ele já estava sentado lá havia algum tempo mas eu não tinha percebido. Foi quando a Rafa disse: 
 Rafa: Tem um menino com cara de furão olhando pra você já faz uns 10 minutos, eu tô dizendo isso porque tá meio esquisito.
 Me virei, quando o encarei ele sorriu. Eu me virei de volta assustada, nunca fui muito de dar trela para os malucos do bar do caralho, sempre tinha muita gente "diferenciada" ali. 
 Capitu: Não conheço ele, ele tava me encarando?
 Rafa: Ele fica bebendo e te olhando, depois olha para o relógio, olha pra fora, e pra você de novo.
 Capitu: Deve ter levado bolo.
 Rafa: Ele é uma graça porque você não fala com ele?
 Nesse momento, uma das minhas colegas espalhafatosas derramou cerveja no meu vestido. E eu tive que me levantar, pra me secar no banheiro. Sempre me passei por bêbada, por causa dos meus amigos. Quando saí, quem estava na porta, fingindo naturalidade? Charlie, e sua roupa social clássica, um pouco amassada. Ele tava parado bem na frente, atrapalhando a passagem.
 Capitu: Com licença, eu preciso passar.
 Charlie: Eu também preciso passar.
 Capitu: Mas aqui é o banheiro feminino.
 Charlie: Não é unissex.
 Capitu: Não, o masculino é ali do outro lado. 
 Apontei, mas ele nem olhou.
 Charlie: Desculpa na verdade eu só queria falar com você mesmo. Tudo bem? Meu nome é Charlie. (E estendeu a mão para me cumprimentar).
 Eu achei o gesto dele muito formal, e engraçado. Apertei sua mão que era bem suave e quentinha, quase do mesmo tamanho que a minha. E foi aí que meu problema com as drogas começou. Porque ele sempre foi um tipo de droga para mim. Fico me lembrando desse dia, e talvez se eu tivesse saído pela janela do banheiro teria evitado muitos problemas. Mas também não teria vivido tanta coisa.
 Charlie: Eu marquei com um amigo aqui, mas ele não apareceu, ou saiu com outra pessoa, ele já fez isso uma vez e eu não aprendi. Agora eu tô aqui me sentindo deslocado...
 Ele falava e ficava olhando pro meu cabelo, pareceu que ele queria que eu oferecesse um lugar na nossa mesa barulhenta, seis meninas ao todo. Eu não ia oferecer, mas aí veio a Rafa:
 Rafa: Oi tudo bem gatinho? Num quer sentar com a gente? Assunto não falta.
 Fiz que não com ele de costas, mas a Rafaela como sempre só faz o que quer.  
 Charlie: Sim, eu adoraria. 
 E olhava para mim, super feliz. Quando ele sorria, seus olhos azuis se espremiam para mim. E meu olho esquerdo piscou a primeira vez, Charlie sempre fez meu olho esquerdo piscar involuntariamente, desde o dia que nos conhecemos. Isso é um sinal claro de stress, pra quem não sabe. Relacionamento hétero sempre foi um tema que me estressou. Fomos todos a mesa, e eu respirando fundo no meu vestido verde cheio de borboletas, que sempre foi meu preferido.
 Ele se sentou do meu lado na mesa, e pediu outra cerveja.
 Rafa: E aí o que você faz aqui em Sampa?
 Charlie: Estudo Artes Cênicas.
 Rafa: Que maneiro, você vai fazer o nesse ramo?
 Charlie: Sei lá, não sei ainda, ser ator talvez, diretor, construir cenários, qualquer coisa... eu só quero estar nesse meio para ser feliz. (E sorria sempre olhando para mim).
 Charlie: Qual é seu nome mesmo, você me disse?
 Rafa: Rafaela.
 Charlie: Ah sim, não, você das borboletas...?
 Capitu: Capitu.
 Charlie: Capitu? Capitu de quê?
 Capitu: Pra que você precisa saber meu sobrenome?
 Charlie: Não sei, achei seu nome tão diferente.
 Capitu: Estranho?
 Charlie: Estranho legal. Parece meio indígena. Você tem alguma descendência?
 Capitu: Não (risos) é só meu pai que gosta de inventar mesmo. Você também é bem estranho, parece até estrangeiro, tem um sotaque diferente, de onde é?
 Charlie: Nasci em Floripa, meu pai é inglês, acho que eu peguei o jeito dele de falar e do pessoal do Sul, e acabou desse jeito.
 Capitu: Eu gosto é charmoso.
 Charlie: Eu também gosto do seu nome.
 Ficou um silêncio estranho porque a Rafaela sempre era a mais paquerada, acho que ela percebeu que o negócio era comigo e ficou sem graça. Eu também fiquei, nesse tempo ainda era meio tímida. Começou a chover, e com o barulho da chuva o pessoal dentro do bar parece que deu uma acalmada, e passou a falar mais baixo. Essa foi minha parte favorita daquele dia. A energia elétrica ficava caindo, e os garçons começaram a acender velas por todo o bar. Sempre que a luz caía, o pessoal gritava: "AêêêÊÊÊÊêêÊ". Bem clima de quinta série mesmo. Isso fez todo mundo ali naquele dia ficar bem humorado, sorrindo a toa mesmo. 
 A Rafa começou a puxar assunto com as meninas, deixando a gente um pouco de lado.
 Charlie: E você Capitu, o que faz em Sampa? 
 Capitu: Ah eu... eu...
 Tava meio desanimada com meu curso, e não fazia ideia de que um dia ia conseguir entrar para a política. Charlie levantou as sobrancelhas, e arregalou seus olhos para mim, ele sempre se interessou por tudo que eu digo. 
 Capitu: Eu tô aqui estudando Relações Internacionais.
 Charlie: E pretende o que, trabalhar em Embaixada? Fala inglês?
 Capitu: Não falo nada em inglês, porque todo mundo se preocupa com isso? Mas tenho um sonho de entrar para a política.
 Charlie: Sei lá, com inglês você vai para qualquer lugar, mas, putz!, você é louca de se meter nisso.
 Capitu: Porque?
 Charlie: Puta ambiente cheio de gente perigosa.
 Capitu: É, esse é o Brasil né. Mas é um sonho, vamos ver no que vai dar.
 Charlie: Eu tava olhando você ali, e pensei comigo, típica aluna de literatura, errei feio...
 Risos. Assim como eu ele tem esse hábito de observar as pessoas e tentar adivinhar o que fazem da vida. Como elas são no geral, é um vício que nós temos, quase como voyers. 
 Charlie: Adorei seu cabelo (do nada), ele é muito armado, uma bagunça linda.
 Capitu: Como você é brega.
 Charlie: Desculpa eu achei...
 Capitu: Gostei do seu também tem uma cor diferente, nem castanho nem loiro, um meio termo, na luz até parece meio verde.
 Charlie: Verde? Agora você tá me zuando muito. 
 E assim muito fácil nossa conversa fluía, até hoje nunca encontrei outro com quem pudesse jogar conversa fora desse jeito tão confortável. Eu sinto falta. 
  
-

 Hoje estamos nós dois de novo no mesmo bar, agora mais silencioso, e coincidentemente tocando a mesma música, que é a minha favorita. E dele também. Um de frente para o outro, um pouco mais velhos, e mais sérios. Seus olhos me dizem que ele tá na mesma que o Júpiter, também não superou. 
  Charlie: Você continua com esse cabelo bagunçado.
 Capitu: E você continua soltando opiniões sobre os outros sem pensar direito nas consequências. E se eu fosse sensível sobre meu cabelo?
  Charlie: Você nunca ligou para a opinião de ninguém. Como eu. Eu adoro isso. Tava com saudade.
 Capitu: Eu não.
 Charlie: Não?
 Capitu: Eu tava ótima.
 Charlie: Fiquei sabendo que você visitou um psiquiatra depois de tudo que aconteceu.
 Capitu: Quem te disse isso?
 Começou a chover de novo, e a energia do lugar acabou de novo. A luz de velas mais uma vez.
 Charlie: A Rafaela.
 Capitu: (suspiro) Eu não falo mais com ela. 
 Charlie: Tá tudo bem com você.
 Capitu: Agora sim, e com você?
 Charlie: Tudo bem também.
 Ficamos olhando para a chuva.
 Charlie: Se o bar inundar que nem em Veneza, eu vou pedir isenção e nem pago a bebida.
 Isso me fez sorrir.
 Capitu: Eu menti, também estava com saudade.



Contínua...

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