terça-feira, 24 de setembro de 2024

Twilight Zone

Essa geladeira, é muitas vezes aberta, ou ninguém a abre. O gelo fica todo derretido, ou vira uma camada bruta de água. Pura água. Água filtrada. Água sempre em movimento, por causa do carvão. Ativado. Eu estou pensando no Titanic. Eu acho tonto, dá pena. Não é grande coisa. De longe parece um objeto estranho, anacrônico. Um quadrado metálico, no passado, sendo que mostra inteiramente e de modo contínuo que é do futuro.

Não há ninguém que diga “Sou”. E eu gosto. O número é cinco para nós dois. Ele decidiu, eu descobri à algum tempo, que nós vamos ter um filho. Eu gostei da ideia. Guardei um espeto de churrasco; todo dia têm churrasco na minha janela, dentro do quarto, embaixo do guarda-roupas. A janela está aberta… e lá vêm o cheiro forte de fumaça… “É incenso meu Amor”. Então, é o seguinte, assim que o feto estiver bem formadinho, eu vou dar de presente pra ele no seu aniversário, a barriguinha mexendo no raio-x:

E o espeto de carne bem aconchegado dentro do saquinho fetal.

Adoro CHURRASCO TODO DIA. A JANELA NÃO PODE SER ABERTA.

Ele é ciumento.

Que sonho horrível esse que eu tive… Sonhei que o rapaz lindo e milionário que estou apaixonada, era um cara muito rabugento, territorialista, inseguro e cheio de traumas primitivos que me apavoram ainda hoje. Quando me lembro do pesadelo que é estar com um homem, que possuí todos os defeitos possíveis, bastante masculinos, e numa só pessoa. Que é esse ser estranho ao qual eu tento me aliar, e simplesmente não consigo, pois… enfim, ele é uma pessoa muito difícil. Parece que têm duas personalidades distintas. Personas, como nos filmes Italianos.

Ele gosta muito de macarronada. Eu também. Eu gosto de Hospital Público, ele gosta dos Particulares. Pra mim são horripilantes, cheios de catracas, elevadores, corredores infinitos. Mapas dos andares. Seguranças, que são seguranças, pois conhecem os funcionários da grande empresa, e até os pacientes mais recorrentes. Os hipocondríacos, como se diz por aí. Máquinas de guloseimas, que pedem notas e moedas, e fazem bastante barulho ao serem usadas.

Todos fingem que não estão observando você tentando derrubar um salgadinho dela. Faz muito estardalhaço mesmo!

Exclusivos; com poucos pacientes, e cadeiras muito confortáveis para a espera… Já os meus públicos… bem, têm crianças correndo para todo lado, senhoras dormindo, velhos discutindo e rindo, e enfermeiros atrapalhados. Colocando e descolocando pessoas de seus assentos. Uma das portas das salas de espera está sempre aberta. Dá para ver e ouvir a rua.

Os pacientes fumantes, ficam perto dela. Ele não fuma, e se pensa que talvez possa ter qualquer tipo de desejo de fazê-lo, pára tudo, e finge que está fumando. Mímica mesmo. Só cogitar é imediatamente encerrado, através da mais pura arte. É tão só meu que vira peso, então para todos cuidado com o que deseja. Eu falo ninguém me escuta, daí fico rodando na cozinha, procurando o pano de prato e ficando zonza. Jogo o peso do rato no colo do filósofo, e desse jeito volto a ter sanidade. Ele a perde por completo.

Falei sobre tudo isso com meu terapêuta, ele ficou calado durante toda a explanação. E no final, ficou muito sério e me disse; --- Um homem assim não existe… você não está conversando com vários homens diferentes sem perceber? Não está com algum tipo de delírio histérico? Você não era desse jeito? Está falando mais, isso é bom, mais… está dizendo bastante asneiras!!!

Vou começar, e manter um diário, quando eu conhecê-lo. Sete deles. Ele põe e retira. Felicidade, Ira, Afeto, Medo… Quem consegue vencê-lo???


PARTE 1