terça-feira, 28 de maio de 2019

Água Parada

     A Gata Desaparecida

Eu tinha uma gata, uma gata perfeita, listrada, ágil e com lindos olhos amarelos. Em volta dos seus olhos, havia um delineado preto o que dava a ela um ar de Cleópatra. Eu me apaixonei por ela porque era atlética, esbelta, misteriosa e astuta. O único problema é que quando eu prendia ela dentro de casa para que eu pudesse ir estudar, ela ficava miando enlouquecida porque queria sair. Ela gostava de um pequeno pé de limão que fica no quintal da minha casa.
 Eu me lembro o dia que depois de muitos em que ela esteve presa dentro da minha casa (porque ela era filhote e ainda muito frágil), eu finalmente deixei que ela saísse, foi de uma alegria total. Um vento soprou e uma das folhas, do pé de limão flutuou. Ela levantou seus olhos amarelos para aquele fenômeno natural, e começou a brincar com a folha. Da forma típica que os gatos brincam, rápidos, alegres e um pouco selvagens. Mas não se preocupe, porque a sua selvageria sempre é usada apenas para mexer com você da forma mais astuta possível.
 Gatos são perigosos, é como se eles fossem místicos. Eles enxergam em você aquilo que ninguém vê, ou não tem coragem para olhar. As vezes eu tenho a sensação que eles até podem ouvir pensamentos. É assim que eles chegam de mansinho e roubam o seu coração.
 Eu sou estudante de psicologia, minha corrente psicológica escolhida é a psicanálise. Meu professor favorito é o Tácito, ele fala de Freud com um deleite de dar inveja a qualquer um, quando este consegue ver o prazer que ele tem de ensinar. Talvez justamente esse gozo que ele tem em partilhar o que sabe aos alunos de todas as correntes psicológicas, é o que torna ele tão especial para mim.
 Por muito tempo eu andei deprimida e não sabia bem o porque, tinha uma sensação estranha de que era muito inadequada. Nasci em um hospital Universitário no Brasil, em uma cidadezinha chamada Bragança Paulista, a “Terra da Linguiça” como todos chamam. Mas morei minha vida toda em Atibaia, cidade vizinha e de cultura asiática, aqui como se diz; é a “Terra do Morango”. As famílias tradicionais daqui cultivam morangos no terreno de suas casas, e anualmente promovem uma grande festa em celebração ao morango. Comemos morango com chantili, morango com cachaça, morango com sorvete, morango com chocolate...
 O telefone da minha casa toca o tempo inteiro, quando não é merchandising de algo que não preciso, e não tenho o menor interesse de adquirir, é alguém fazendo cobrança das dívidas históricas da minha mãe. Sempre que vou buscar o telefone dela para que ela resolva seus próprios problemas sozinha, alguém do outro lado da linha desliga. Minha mãe apanhou a vida inteira do meu pai, e da própria vida, sem saber exatamente o porquê.   Eu sei porque, e não precisa ser muito inteligente para identificar, apenas é preciso ser um bom observador.
 Minha mãe busca algo que não existe, é invisível, mas, ao mesmo tempo, parece estar em todos os lugares da fase da terra. Quem ela é? Ao final desse história você vai descobrir… A única coisa que você precisa saber, é que ela me odeia. Sim. Minha mãe me odeia. Eu também achava que não fosse possível uma mãe odiar um filho, até alguns anos atrás. Achava que isso só acontecia em filmes. Era inocente e não via as coisas com clareza. Mas hoje eu vejo, ela sente um ódio tão tremendo por mim que passou toda a sua vida me sabotando. Ela tem grandes olhos que viajam para todos os lugares do mundo,a minha amada mãe.
 Meu nome é Horrana (quer dizer família em Havaiano) e vocês devem estar se perguntando de onde veio esse nome, pois bem, veio de um programa de TV muito famoso no Brasil. TV Xuxa, minha mãe e sua amiga assistiam ao programa e uma moça da plateia conversou com a apresentadora, e disse seu nome, que no caso agora é o meu. A amiga da minha mãe disse; “Porque você não coloca esse nome nela? É diferente...”, e minha mãe que estava grávida de mim achou uma boa ideia, esse nome soa bem. Pelo menos é isso que ela me conta. Quando fiquei sabendo dessa informação por ela, achei meio negligente. Parece que quem me deu minha própria identidade foi outra pessoa.
 Eu assistia a “Nave da Xuxa” sempre, me lembro do dia que os Mamonas Assassinas foram ao show, quando o Ayrton Senna foi, e quando a “Nave da Xuxa” pegou fogo. Desse dia eu me lembro com muito mais clareza. A morte é algo que permeia o dia a dia do povo brasileiro, sofremos perdas terríveis durante nossa vida. No dia da notícia da morte dos Mamonas Assassinas, eu me lembro de onde eu estava, minha família costumava se mudar muito. Mas eu me lembro bem onde eu estava, acho que todo brasileiro se lembra desse dia, porque foi um choque muito grande. Eles são uma banda de rock nacional que representa a alma brincalhona do povo, eram muito inteligentes e irreverentes, uma esperança para um futuro de sucesso.
 Todas as crianças amavam as músicas deles, eu amo até hoje. Saber que eles não iam voltar nunca mais, foi meu primeiro contato com a morte. O segundo foi a morte do Ayrton Senna, até hoje não entendo porque ele simplesmente não ficou em casa naquele dia. Talvez ele se sentisse pressionado a ser o único herói do país, morreu com um golpe brutal no coração. Justamente onde era o seu ponto fraco.
 Escrevo porque quero fazer uma denúncia. Tem alguém aqui que está me matando lentamente, de dentro para fora. Destruindo meu psicológico, minha autoestima, e meu corpo físico e espiritual. Nunca fui uma pessoa muito religiosa, para falar a verdade nunca acreditei em Deus, propriamente dito. Mas de uma forma contraditória sempre rezei, não uma reza do tipo: “Deus, proteja a humanidade e ajude todos os necessitados”. Não que isso não seja legítimo, mas devo dizer que eu rezava por mim. O conteúdo das minhas rezas era: “Que Deus me proteja, me ajude a continuar sendo uma pessoa boa para mim mesma, que eu saiba me proteger quando tentarem me agredir, e que proteja meus gatos e meu cachorro”. Risos. É triste, mas eu apenas me sinto bem e protegida quando estou com meus gatos.
 Minha primeira gata a rajada, com olhos de Cleópatra se chamava Psiquê. E era uma alegria, uma companhia que me acalmava e alegrava no fim dos meus dias, e nos finais de semana também. Me divertia ensinando ela a brincar com qualquer coisa que eu encontrasse em casa. Essa é uma das melhores coisas nos gatos, eles tem a má fama de serem interesseiros, e de gostarem de coisas caras. Mas a verdade é que eles gostam e brincam com as coisas mais inusitadas, brinquedos reciclados são os favoritos. Quem nunca gastou dinheiro a toa comprando um brinquedo para um gato, e ele se divertiu mais com a caixa do que com o brinquedo em si?
 Pois bem, estava eu em uma aula extremamente chata. Com um novo professor que aparentemente tinha acabado de voltar da Europa. E tinha como único objetivo durante as aulas bater papo com os alunos (acredito que os Europeus não são muito de papo, e ele estava carente). A ideia era que ele fosse o supervisor dos estagiários, mas eu tinha a terrível sensação que ele só usava as aulas pra falar dele mesmo. Foi quando vi uma joaninha vermelha pousar em cima da minha bolsa marrom. Para alguns, joaninhas são sinais de sorte, e para mim também. Várias das minhas colegas tentaram pegar a joaninha com as mãos. Mas ela veio diretamente para mim, sem nem que eu fizesse esforço. Ela subiu em cima da minha bolsa, uma bolsa vintage que eu comprei em um brechó. E ficou circulando em cima dela durante um bom tempo. Ver aquilo me deu angústia.
 Depois voou para cima do lustre na sala. Antes de sair de casa, minha mãe me convenceu a deixar a porta de casa aberta para que a gata pudesse entrar e sair a hora que quisesse, e eu burra, achei que era o melhor a ser feito. Acontece que enquanto via aquela joaninha, vocês podem achar que eu sou louca, mas, imediatamente pensei: “minha gata morreu”. Tive a sensação de que ela deu um jeito de vir até mim. Aquela joaninha que pousou em mim, era minha gata. Voltei para casa angustiada, estava ainda aprendendo a dirigir direito. Tinha recentemente ganho um fusca bege, da minha mãe e pai, e estava ainda com certo receio de dirigir dentro do estacionamento da faculdade. Sempre abarrotado de carros, e muitos deles estacionados de forma incorreta. O que atrapalhava mais ainda na saída.
 Quando voltei para casa, vi a porta de correr da cozinha fechada, o que me deixou puta da vida, porque não teria mesmo como ela entrar nem se quisesse. Chamei ela balançando o pote de ração como de costume, e fazendo aquele chiado que fazemos quando queremos chamar um gato. Batendo a língua entre os dentes, e fazendo um barulho semelhante ao chocalho de uma cobra Naja. Chamei, chamei e nada dela. Ela que era tão rápida, que assim que eu chamava vinha correndo subindo as escadas, e fazendo um barulhinho muito fofo de ronronar característico. Como não veio, eu parei de chamar e fui para o meu quarto me sentindo amortecida, pela falta dela.
 Ainda em negação, pensando que talvez ela voltasse, e que nada tinha acontecido. Me sentei a frente do computador, e senti um farfalhar de vento entrando no meu quarto. Minha cama fica atrás da minha mesa de estudo. Psiquê, esse era o nome dela, entrou no meu quarto, e se sentou na minha cama. Se ajeitou como sempre fez quando estava corpórea, em cima da minha manta com listras rochas e azuis-claras. Tive a sensação nítida de que ela estava no meu quarto comigo. Me virei, mas não a vi em cima da minha cama. Senti medo. Sim, medo de um gato fantasma.


Continua ...

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