quarta-feira, 29 de maio de 2019

Capítulo 2 . de “Água Parada”

Chiclete com Banana

 Durante a minha prova para tirar carteira de motorista usei um grande aliado que meu pai me ensinou para manter a calma, mascar um chiclete. Não sei porque, mas funciona, relaxa a mandíbula. Se eu tivesse feito isso na primeira vez que fui fazer a prova do carro, não teria reprovado. Tirei carteira AB, durante o teste de moto passei com facilidade pelo percurso em zigue-zague. Mas no dia do teste com o carro, não sei porque, estava muito nervosa. Havia um homem na fila de espera comigo, que não parava de tentar me apavorar. Falava que já tinha feito o teste não sei quantas trezentas vezes. E que, com certeza, eu também não seria capaz de passar. Porque se ele não passou...
 Naquele dia estava de vestido quadriculado azul, usava um colar com a representação de um relógio enorme. Acho que meu colar o perturbou, e ele me pegou para Cristo. Deveria ter, pelo menos, uns trinta anos. O que eu fiz foi concordar com tudo que ele dizia, e depois me posicionar o mais longe possível dele. Porque com gente louca não se discute. Enfim, continuei esperando a minha vez. Não era para ter dado certo naquele dia, entrei no carro e de tão nervosa que estava deixei o Gol preto morrer três vezes. Reprovei. Essa é a única regra para reprovação, não deixe o carro morrer mais de três vezes.
 Mas então o que eu fiz? Desisti? Não. Liguei para minha mãe para desabafar. E depois subi até a autoescola para pagar o próximo teste. Na “Paraíso”, esse era o nome da autoescola, estava me sentindo um lixo. Me cobrava muito, porque pensando melhor sobre isso, eu não tinha muita experiência. Aprendi a dirigir na autoescola, e não muito cedo como geralmente acontece com os meninos. Estava desanimada porque ia ter que tirar do meu bolso essa nova derrota. Mais uma entre tantas.
 Hoje, eu tenho um fusca amarelo banana. E realmente aprendi a dirigir com ele. Dirigir não é só saber os comandos básicos da direção. É saber se comunicar com os outros carros, é saber antecipar movimentos desses outros sofás motorizados que circulam por aí. Se você não souber isso, provavelmente vai ser a causa ou a consequência de um acidente.
 No segundo dia de teste, estava mais confiante, e vestia minha camisa xadrez verde. Que eu considero sendo algo que me dá sorte. E deu. Mas de um jeito que outros não considerariam sorte. O que aconteceu foi o seguinte, estava na fila, com minha camisa da sorte, meu fone de ouvido ouvindo música relaxante, e mascando meu chiclete. As pessoas em volta de mim insistiam em tentar puxar assunto comigo. E eu para não perturbar minha própria paz daquele dia, recusava educadamente, me fingindo de surda. Mas em um momento, não consegui evitar as investidas de uma senhora que queria porque queria contar fatos estranhos de sua vida para mim. Me considero como sendo um ímã para pessoas que precisam desabafar. É incrível, eu sento em qualquer lugar, e alguém se aproxima de mim para me contar algo muito íntimo de sua vida. Lembro de um dia que um senhor estacionou sua Cherokee perto de mim quando eu estava num ponto de ônibus, e me contou que no dia anterior o seu filho, que era bombeiro, havia morrido naquele ponto da estrada tentando salvar alguém de um acidente de trânsito.
 Ele se sentia desconsolado e não entendia porque aquilo havia acontecido, fiquei ali com ele simplesmente ouvindo tudo e me compadecendo. Depois que seu relato acabou, ele me perguntou se eu não queria uma carona… Não me entendam mau, eu confio nas pessoas, percebi que ele se sentiu melhor depois que me contou aquilo. Mas de jeito nenhum eu ia entrar no carro de um desconhecido. E se ele mentiu? E me contou tudo aquilo apenas para que eu entrasse no carro dele? E se ele fosse um assassino? Ou talvez ele só quisesse companhia, perder um filho deixa qualquer um sem rumo. Mas na dúvida… prefiro continuar na dúvida. Respondi: “Não obrigada, meu ônibus já está vindo, meus pêsames ao senhor e sua família, e se cuide”.
 A senhora que puxava assunto comigo naquele dia estava me estressando a ponto de eu começar a rezar pedindo que ela parasse. Quando de repente escutamos uma batida metálica, uma das candidatas a CNH havia metido o pé no acelerador e batido o carro na cerca dentro do ginásio de esportes que fazíamos o temido teste da baliza. Ela saiu transtornada do carro, gritando e chorando que tinha perdido o controle do carro. Depois dessa todos se manifestaram, tinha gente que zombava da pobre mulher, tinha gente que xingava, tinha gente que reclamava que isso ia “atrasar mais a vida deles”. Que horas aquilo ia terminar?
 Nessa, o mesmo rapaz que no meu último teste zombou de mim, que eu não seria capaz de passar, achou uma boa ideia puxar briga com um dos instrutores da baliza. Ele infernizou tanto a cabeça do cara, que ele chamou a polícia. Fiquei ali perplexa observando aquela balbúrdia. Ninguém acreditava no que estava acontecendo, vimos um rapaz passar de mero candidato a CNH de carro, a novo presidiário. Depois que ele foi levado de camburão, num show pirotécnico o instrutor veio até mim e disse: “É sua vez”. Vocês podem pensar que toda essa situação me paralisou. Mas na verdade, foi o que me deu um impulso. Eu não desejo o mau de ninguém, mas acontece que perceber que o pior que podia acontecer comigo naquele dia, já tinha acontecido com outra pessoa, me deixou leve.
 Poderia reprovar, mas, pelo menos, presa eu tinha certeza que não iria. Entrei no carro, fiz a baliza normalmente e saí para fazer o circuito fora do ginásio. Vi a primeira placa, que me lembro que o símbolo dizia para não entrar a esquerda, e eu sempre cheia de dúvidas perguntei: “Entro na esquerda?” Ao que ele respondeu: “Você é que sabe...” Ok, foi um pouco imbecil fazer uma pergunta dessas, isso fazia parte do teste. Pensei por uns três segundos e entrei na direita. É estranho que quando se está sendo testado de qualquer forma, algo que para você é simples, se torna complicado. Fiz o percurso por um curto caminho e o instrutor pediu para eu parar, era a vez da moça que estava junto de nós no banco de trás. Trocamos de lugar, e passei pela tortura de ver de camarote ela sendo testada. Estava nervosa demais. Mas aparentemente passou também.
 Digo isso para mostrar que não sou mais uma adolescente. Apesar de criar gatos como uma criança. Mas não posso fazer nada a esse respeito, acho que meus gatos me protegem de almas das trevas. E eu tenho como provar, vocês querem saber? A natureza é muito mais sábia do que vocês podem um dia pensar.


Continua...

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