O
Escorpião Rei
E
mais uma vez, o amor tentando entrar. Devo contar do dia que fui
picada por um escorpião dentro da minha cozinha. Era um dia comum,
eu já sabia que não encontraria mais o Alain Delon porque ele tinha
se mudado para outra cidade. Naqueles dias ao mesmo tempo que estava
chateada com ele por ir, estava comigo mesma porque costumo estragar
os relacionamentos sozinha. Tenho um comportamento muito
autodestrutivo, é algo que faz parte de mim desde muito tempo. É um
dos motivos pelos quais busquei terapia durante meu curso de
psicologia.
Sobre
o escorpião que me picou devo contar que foi uma experiência
incrível. Fui até a cozinha beber água, quando estava próxima a
pia senti uma picada no pé direito. Demorei ainda um pouco para
olhar para baixo. Foi quando vi um pequeno escorpião negro
balançando suas patas dianteiras, como se estivesse dançando
lambada com suas castanholas. Achei ele muito fofo quando vi, mas me
passou pela cabeça que estava “puto da vida”, pela forma
agressiva que se movia.
Não
sentia dor porque a picada em si do escorpião não dói nada, é
quase imperceptível. Até senti pena dele, porque eu poderia ter
pisado em cima dele e matado, foi esse o motivo dele ter me picado.
Acontece que obviamente não fiquei só ali parada olhando para ele.
Pensei rápido: “se ele for um dos fatais eu estou ferrada”.
Minha mãe que tinha acabado de sair para trabalhar (ela trabalha
muito), voltou com meus gritos, sorte minha que ela ainda estava
próxima. Porque eu naquele tempo tinha carteira de motorista, mas
não tinha muita prática, nem carro próprio.
Portanto,
foi ela quem me levou ao hospital. Fomos para um hospital particular
aqui da cidade, meu pai ainda tinha convênio médico. No hospital
foi onde tive uma revelação, porque ainda estava me sentindo muito
mau por causa da falta do Alain Delon, mas lá na sala de emergências
tive a certeza de que tinha tomado a decisão correta em não
prosseguir com esse relacionamento com alguém tão mais velho do que
eu.
Enquanto
eu sofria as dores da picada de escorpião; é uma dor muito
interessante que para mim se assemelha muito as cólicas menstruais,
como fui picada no meu fálico dedão direito, a dor ia descendo e
subindo pelo meu corpo, como se fossem pequenos e grandes (iam se
alternado) choques elétricos pelo meu corpo. Era uma dor realmente
cruel, eu dentro do carro com minha mãe, gritava para ela ir mais
rápido, porque além da dor, já sentia que meu pé ia ficando
dormente. Comecei a achar que ia perder meu pé, fiquei desesperada,
e eu que me considero uma pessoa fria - pouca coisa me desespera -
naquele dia fiquei apavorada.
Só
pensava; como é possível um bichinho tão pequeno causar tanta dor?
Pois é, o escorpião é todo trabalhado no ódio. Tive que levá-lo
comigo para o hospital, geralmente essa é a melhor coisa que se faz
quando você é picado por um bicho peçonhento, para identificar que
tipo de veneno entrou no seu corpo é bom levá-lo. Lá na sala havia
várias macas, e uma cortina que separava os pacientes. Fui colocada
em um leito, e um cateter com soro foi colocado em mim. Se tem uma
coisa que eu odeio, é esse cateter, é muito torturante ter isso
enfiado no seu braço. Mas se eu quisesse que aquela dor parasse,
precisava tomar todo o soro pela veia.
Naquele
momento na maca, eu já observava pequenas veias vermelhas no meu
dedão aparecendo. E meu pé já estava totalmente dormente e
impossibilitado de se mover. Perguntei para a doutora que me atendeu
se ia perder o pé. Ela disse que não, eu só precisava ficar ali e
“tomar” todo o soro, que aos poucos a sensibilidade do meu pé
voltaria. Fiquei ali agonizando, quando ouvi e vi alguém vomitando
na maca do meu lado. Era um homem pela voz, ele não parava de gemer
e em seguida vomitar.
Não
via seu rosto por causa da cortina, mas via a moça asiática que o
acompanhava, seu semblante mostrava que estava de “saco cheio”.
Foi quando uma das funcionárias da limpeza puxou a cortina para
limpar o vômito do meu colega acamado. E eu tive uma revelação
quase que divina que acalmou meu coração. Foi como ver como seria
meu futuro, se tomasse a decisão errada. Alain Delon, certa vez, me
fez a seguinte proposta: “porque você não tranca a faculdade, e
viaja comigo aí pelo país?”. Não posso mentir, fiquei tentada
sim em ir nessa aventura que teria com ele ao melhor estilo “Lolita”,
mesmo já sendo de maior quando ele me propôs isso. Mas é claro que
preferi não ceder a esse meu desejo inconsequente, aproveitei a
companhia dele enquanto durou.
No
hospital, quando olhei para o lado quem eu vi? Isso mesmo, Alain
Delon, uma versão muito mais velha do meu amado crush judeu. E devo
dizer que ele não estava nada bem, me pareceu que tinha algum tipo
de intoxicação alimentar, gemia e chorava. Sabe como são os homens
com qualquer desconforto físico, parece que estão morrendo. Não
era quase nada, e ele fazia um show. Sei disso, porque a dor que eu
estava sentindo era lancinante, e eu aguentava com dignidade. Mas ele
não, era terrível, aquilo começou a me incomodar muito mais do que
o veneno do escorpião em mim.
Até
a moça terminar a limpeza não podia fechar a cortina, então tive
que ver aquela dinâmica horrível de casal que eles tinham, e
imaginar que se eu tivesse escolhido jogar tudo para o alto por causa
de uma paixãozinha teria aquele futuro. Estaria totalmente
indiferente ao sofrimento da minha “metade da laranja”, enquanto
ele padece a minha frente. Como a moça asiática que estava com ele
agia. Foi uma lição tão bem colocada, e num momento tão certo do
que acontecia comigo, que eu não acho que foi só obra do acaso. Foi
um tipo de mensagem para mim. Eu estava apaixonada, e teria me
destruído de vez, se tivesse dito sim a “proposta indecente”.
Continua...
Nenhum comentário:
Postar um comentário