Precisamos Falar sobre Sofia, a Filósofa Autista
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| Vocês não tem sentimentos? |
A
energia aqui caiu. Parece que minha gata fantasma anda perambulando
em volta de mim. É certo que está chovendo, e geralmente isso pode
causar algumas quedas de energia. Mas acontece que foi num momento
muito específico, quando minha “amada mãe de todos”, resolveu
tirar um momento do seu glamoroso
dia para me criticar. É meus
amigos, essa querida não dá trégua nem aos finais de semana.
Porque não tira umas férias e nos deixa em paz, não é mesmo? Mas
assim que ela abriu a boca, a luz do ambiente se apagou.
Ontem
vocês ficaram sabendo que se a maconha for legalizada no Brasil,
minha vida vai continuar seguindo o mesmo fluxo, nem de casa eu vou
sair (a não ser que seja para
ir a Amsterdam, sou metida).
Tem coisas que parecem que não foram feitas mesmo para a gente aqui
da terra das bananas. Até
porque para que isso aconteça realmente por aqui, tem que haver um
controle médico sério sobre quem pode ou não pode fazer uso. Sim,
dependendo da pessoa, se ela tiver alguma tendência hereditária a
esquizofrenia ela pode sim fazer a viagem, e não voltar nunca mais.
Eu
fui na fé para essa experiência, porque conheço meu histórico
familiar, e sabendo
que os índios usam substâncias muito mais perigosas em
seus rituais religiosos, que
aprendi em Hogwarts, fiquei sim curiosa. O que posso fazer? A
curiosidade até o momento não matou o gato. Sigo estável.
Hoje,
preciso falar da menina Sofia. Uma garotinha com lindos e
cacheados
cabelos cor de mel, pele cor de
canela, olhos amendoados e
autista. A conheci fazendo os estágios remunerados que fiz durante
minha faculdade. Preciso deixar claro aqui que ainda não finalizei,
se quisesse poderia tirar meu diploma de Bacharel, mas quero um dia
ter minha própria clínica psicanalítica, portanto
ainda me faltam alguns estágios obrigatórios.
E para isso, sei que não posso parar de estudar. Vocês sabiam que
bons psicólogos nunca param de estudar? Mesmo quando queremos não
dá. Para onde você olha ou vai, existem pessoas e
seus comportamentos curiosos.
Devo
dizer que um dos motivos pelos quais agora não prossigo meus
estudos, é a situação atual do país. A direita extrema desse
país, achou que seria uma boa ideia eleger o Voldemort para
Presidente
da República. Nada contra ele, mas acho que já está mais do que
obvio, que ele está para o país, assim como eu estou para a
maconha. Não está dando match. Então sigo esperando esses tempos
sombrios passarem.
Sofia
é uma aluna de uma escolinha de primário, muito célebre e de
renome daqui da
minha cidade. Quando nos conhecemos a reação dela foi de total
chateação. Não gostou de mim, e demonstrou isso de uma forma muito
simples. Me viu, me olhou por dois segundos, e chorou. Tenho uma
vizinha autista um pouco mais velha que a Sofia, e que aparenta ter
um grau mais elevado do que ela de autismo,
já é uma adolescente, e é muito mais infantilizada que a Sofia.
Todo sia vejo ela voltando da
escola pela minha varanda. Ela,
vou chamar
de Lavander; passei apenas uma semana a acompanhando durante sua
rotina escolar (existe um Centro de acompanhamento de pessoas com
deficiência já estabelecido em Atibaia), e devo dizer que foi barra
pesada.
Lavander
é muito inteligente, mas assim como eu tem problemas com pessoas que
querem ditar o que ela deve ou não fazer. Tivemos muitos embates.
Mas voltando a Sofia, ao longo do dia ela foi se habituando a mim.
Sofia recebe acompanhamento psicológico, psicopedagógico, e
qualquer outra coisa que ela queira aprender dentro do Centro, e fora
também. O programa de estágio que eu estava ligada era um dos
braços de todo esse processo.
Viver
com Sofia, para mim no início pareceu que seria um mar de rosas,
porque já estava a dois anos trabalhando com acompanhamento de
crianças em sala, e já tinha passado por muitas crianças
baderneiras. No bom e no mau
sentido. Sofia era linda e delicada. Uma
bonequinha real, muito esperta, e aparentava só ter problemas mais
sérios com a sua comunicação verbal. O que só prova que quanto
mais cedo é o tratamento, melhor é a vida social do autista. São
realmente aptos a estar no mercado de trabalho. Sofia era tão
meticulosa nas suas tarefas, que isso causava certa inveja entre seus
coleguinhas de sala. Tive muitos dias para constatar tal fatalidade.
E a
isso, se junta ainda ao fato de que ela tinha uma aparência muito
fotogênica.
Pude
constatar evidências dessa inveja prejudicial a menina, observando
seu desempenho no parquinho da
escola. Como
a maioria dos autistas Sofia tinha suas manias, e umas delas era
evidente também no parquinho. Ela ficava apenas em um brinquedo do
parque, passava quase trinta minutos subindo e descendo no mesmo
castelo de plástico; subia as escadas e descia no escorregador.
Fiquei me perguntando se isso se devia mesmo ao fato de simplesmente
ela ser autista. Sabe aquele ditado, “quem nasceu primeiro o ovo ou
a galinha?”. Batia o sinal e ela corria para aquele brinquedo, e de
lá era difícil tirá-la no final do intervalo.
Alguns
meninos iam brincar com ela, mas as outras meninas corriam e tratavam
de tirar de perto dela qualquer amiguinho que se aproximasse. Achei
aquilo curioso. E anotei no meu caderninho. Passado os dias com a
criança
percebi que ela amava música, principalmente as musiquinhas que a
professora cantava em sala de aula. Repetia facilmente o que ouvia,
como um gago que consegue falar magicamente, quando usa a melodia de
uma música. Ouvi-la, era para os fortes; percebi isso com o seu
desenvolvimento ao passar do
tempo. Ela
cantava cada dia mais alto, e sua fala não era compatível com sua
idade, era realmente a voz de
um bebê desengonçado.
Isso
deixava as professoras desestabilizadas (e eu também) e ela percebia
isso, então as vezes se calava no convívio escolar. Pois bem, não
a progresso sem algum sofrimento não é mesmo? Me muni das músicas
infantis que se cantam aqui para as crianças, e passei a usá-las
como arma de combate. No intervalo acompanhava Sofia no brinquedo, e
cantando, (não sou nenhuma Lady Gaga) sugeria a ela que seria
divertido experimentar os outros brinquedos do parque. O parque da
escola centenária, é enorme, tem vista para as ruas da cidade, é
cercado, e muito seguro. Logo
a frente dele tem o cemitério “São João Batista”, que também
faz parte da história da cidade. Estudar lá era um privilégio não só para
a Sofia, como para todos os outros alunos. Assim ficava inquieta em
ver a Sofia perder tantas boas experiências, e não desenvolvendo
sua psicomotricidade (viu como eu sou inteligente?).
Com
música tudo flui com mais facilidade, ela passou a ir até os outros
brinquedos. E nossa cantoria também atraia as outras crianças das
outras classes, as vezes só iniciava a brincadeira, e elas mesmas
davam prosseguimento. Eu ficava cada dia mais feliz com as mudanças
de rotina, e as conquistas de Sofia. Acontece que num dia fatídico,
tudo se esclareceu melhor para mim; o motivo pelo qual Sofia ficava
mais no canto, como a Baby de Dirt Dancing. Conversava num banco do
parque com a professora da garota, num local que podia ver e ser
vista por Sofia, agora que éramos amigas ela confiava em mim e se
sentia segura com a minha presença. Quando vi de longe uma
coleguinha de classe, puxar Sofia de um brinquedo pelos cabelos. Sim.
As professoras presentes ficaram com tanta vergonha, que fingiram que
não viram. Mas eu que sei, que é de pequeno que a porca torce o
rabo, relatei no meu caderninho, e avisei o Centro de Apoio.
Não
culpo a menina, acho que as crianças de comportamentos ruins só
estão imitando os defeitos dos pais. Como a pequena delinquente é
filha de gente importante da cidade, demorou para que alguma
providência fosse tomada. Mas vocês percebem uma coisa muito
simples, mas ao mesmo tempo tão importante? Autistas não circulam
em determinados locais não por uma dificuldade deles em lidar com
certas situações, mas sim por bloqueios pessoais, das pessoas que
se dizem “normais”.
O
ápice da minha curta história com Sofia, foi quando eu e ela
conversávamos, sim, cheguei a um ponto de conseguir conversar com
ela, com gestos e sons, e as cantigas infantis. Que eu perguntando
sobre seu dia, como ela estava se sentindo, o que achava do tempo,
essas coisas… ela disse para mim com todas as letras: “C a p e t
a”. Fiquei encantada, ela nunca me tinha dito qualquer palavra tão
perfeitamente e com um tom tão de acordo com sua idade. Depois
fiquei sabendo que pessoas muito religiosas apontavam pessoas
autistas desde a antiguidade como sendo algum tipo de manifestação
satânica. Eu tive a sorte de conhecer Sofia, que a meu ver era um
anjo, uma filósofa por natureza.
Continua…

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