domingo, 30 de junho de 2019

Capítulo 14. de "Água Parada"

 Seios Fartos 

 Tantas perguntas quando a resposta geral é muito simples. Eu é que mando. Eu escolho como vou viver, o que quero fazer, e com quem quero estar. Como boa Maria Capitolina que sou amo minha liberdade. Apenas me relaciono com quem faz minhas vontades, aquele que demonstra estar totalmente fiel a minha vontade, é aquele que receberá a sorte de me ter em mãos. Quando finalmente caio na mão do meu amado, não consigo deixar de pensar naqueles que não tem a mesma sorte que eu. Vocês sabiam que muitas mulheres não tem outra opção que não o casamento em pleno século XXI.
 Sabe qual é o nome disso? Patriarcado. Mesmo Capitu que teve a chance de estudar, passava apenas por uma preparação para o futuro marido. Aprendia o básico, para administrar uma casa. Não devia ser muito agradável, estar em sala de aula e perceber que apenas estava se tornando mais “fina e chique”, para alguém que ela nem conhecia muito bem. Homens não tem boa habilidade em demonstrar seus sentimentos, geralmente esse tipo de revelação se dá de uma forma mais física. Não que eu me incomode, sou muito vaidosa e ser desejada é sempre um elogio.
 Eu gosto de beijos e vocês? Infelizmente para muitos esse tipo de manifestação afetuosa em público pode ser tida como um tipo de provocação. Ou seria desejo? Para mim, independente do gênero do casal não gosto de presenciar, fico desconfortável. Muito menos dou beijos em público. Gosto de privacidade. Mas as pessoas aqui da “Terra das Bananas” são muito provocantes, e, com certeza, deixam sua marca. Eu acho graça. A regra é clara, é proibido proibir. Faz o que quiseres porque é tudo da lei.
 E isso se aplica a suas práticas tanto sexuais, quanto a busca por conhecimento científico, ou entretenimento cinéfilo, uma forma mais rápida de aprender. Os gostos são diferentes, e a curiosidade de Capitu é grande. Quando ela quer, até usa de meios ilícitos para saber das coisas. Como a prática da Pirataria por exemplo, sou grande conhecedora dos downloads ilícitos. Mas confie nela, é tudo por uma boa causa. Agora falando do corpo feminino e suas representações. Existe uma senhorita muito famosa, que sempre exibe seus seios fartos como algum tipo de dádiva, e eu vejo claramente como uma ofensa a minha dignidade psicológica.
 Meus seios são pequenos e eu gosto deles assim. Ainda não tenho filhos, pretendo tê-los se um dia a balbúrdia econômica acabar, e eu encontrar alguém que faça o que eu peço. Este é o meu amado. Pode ser alguém sombrio, meio desconfiado e cheio dos enigmas. Tácito, vive se escondendo atrás de portas e tentando ouvir o que acontece lá dentro. Para quem vê esse tipo de comportamento de fora pode pensar que é algum tipo de distúrbio psicótico, mas eu acho charmoso. Me anima, me faz querer saber mais da pessoa. A conversa, ou as discussões podem ser infinitas. E o silêncio também. Acho romântico os ciclos diferentes que um casal pode passar durante sua vida. Não sei porque as pessoas querem que as coisas sejam perfeitas.
 Mas voltando aos peitos, acredito que homens são mais ingênuos, tudo que à no mundo é feminino, porque tudo na verdade veio da natureza e foi modificado pelo homem. Mas só porque eu sou a melhor representação da natureza possível, isso não significa que sou algum tipo de escrava, ou um meio para atingir fins. Minha vida não deveria ser transformada em seriado, ou se eu tenho grandes seios isso não significa que vou fazer todas as suas vontades como se fosse sua mãe tóxica.
 Sabe o que é uma mãe tóxica? Aquela que não sabe dizer não. Isso prejudica não só ela, como a si mesma. Já viram Babadook? Crie um menino dando tudo o que ele pede, a hora que ele quer sem nenhum tipo de restrição e um dia ele vai virar um monstro que você vai ter que esconder no porão. Todo mundo precisa de limite. Mesmo para o país do Gavião, os recursos não são infinitos, e não dá para comer papel. Quando você demonstra ser frágil demais, doce demais, submissa demais, os seres humanos se aproveitam. Isso de qualquer idade ou gênero. Quando você se der conta todos estão apenas te usando, e você nem está mais presente, já virou um abajur dourado.
 Brilha muito, mas nada do que você diz, tem muita importância. Eu falo pouco, mas quando falo é com voz bem mansinha e cheia de razão. A não ser que o que eu disse não foi muito bem entendido, daí eu repito com um pouco mais de entonação na voz. O ponto de enfoque em mim não são meus seios, mas sim meus olhos que tudo veem, e pouco revelam. Não falo não porque não me importo, mas porque acho que cada um faz aquilo que quiser. Apenas me pronuncio quando a vontade do outro atrapalha as minhas, daí abro a boca. E uso todo o dom do convencimento que papai me ensinou.
 Nenhuma menina, garota ou mulher adulta deveria ser reduzida a só o papel de mãe. A figura da mulher de diamante, reduz todas a uma fonte infinita de lucro. E eu não simpatizo com ela. Peço que alguém retire sua estátua de devoção de seu pedestal com um Machado bem grande e afiado. Essa moça de sorriso triste me ofende, e por vezes até viola. Permite que se pegue trabalhos tão bem elaborados e os reduza a uma repetição de algo que eu já vi, e eu gosto demais de novidade. E principalmente não gosto que invadam o território do meu Criador, quando vejo partes dele, eu reconheço.
 Os diretores do meu orfanato por exemplo, rebatem as informações quase que imediatamente, e nada me atinge. A escrita aqui é rápida, se decifra códigos de forma muito clara e rápida. E olha só que interessante, nós os deciframos e colocamos no ar, exatamente ao contrário para não deixar ninguém aqui se sentindo mal pela vida que leva. A vida no continente de cima é muito mais inundada de luxo, o que não condiz com a realidade daqui. Nossa realidade é contrária a fantasia de vocês, e vice-versa.
 Gosto de realidade, pessimismo e um pouco de cinismo também. Tem coisas que a gente não deve falar, sem algum nível de dissimulação na cara dos outros, sem correr o risco de levar um soco na cara. A musa de diamantes ao olhar de Dona Capitulina é a porta de entrada para comportamentos corruptos, alguém que só ganha, nunca perde. E não é por talento, ou mérito próprio, é sempre por ser um símbolo já consolidado, mas que anda meio desbotada já a algum tempo. Minha cor é de canela, fico marcada de sol, meus cachos são escuros e espessos, não combino com essa senhorita. Acumula coisas demais, coisas que nem sempre tem um uso para ela. Se alguma coisa dela escapa e caí aqui, logo viro objeto de chacota, sendo que nem estava sabendo do ocorrido. Peço um pouco mais de respeito com a minha casa, que mesmo sendo simples é muito digna, do seu jeito. A imagem dessa Diva infeliz, é mais como uma demarcação de território mesmo, puro egoísmo.

Continua?

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