Um domingo chuvoso, e eu sem meu amado Charlie. Depois que nos casamos ele deixou de ser apenas um ator de teatro barato em Florianópolis, que foi onde eu o conheci. Encenado a famosa peça, "Shakespeare Apaixonado por Ninguém", lembro como se fosse ontem, foi no Teatro de Santa Catarina, o famosíssimo teatro Governador Pedro Ivo. Eu a maravilhosa Capitu, tinha acabado de me eleger. Me sentei em uma poltrona nem no fundo nem a frente de nada, mas no meio. Nunca gostei muito de peças teatrais, elas me dão sono. Além de que estar na frente do palco fica mais fácil que as pessoas vejam as suas reações diante do que está sendo encenado. Por isso, eu e meus assessoras nos sentamos o mais discretos possível. Foi obrigada a prestigiar peça sobre coisa nenhuma, porque precisava sair bem na foto diante de meus eleitores, fiz promessas de prestigiar e elevar a cultura do país.
Pois bem, fui ver a peça de nome absurdo. Não deu dez minutos de firulas dos grandes homens das artes e dos espetáculos... fiquei tentando entender porque havia tanto homens encenando papéis femininos, caí no sono. Acordei com um estrondo grande que anunciava a entrada daquele que viria a ser meu esposo. Achei tudo muito exagerado, música, roupa cheia de babados, e versos incompreensíveis. Mas gostei da figura de Charlie, nem gordo nem magro, um e sessenta de altura, belos olhos azuis, cabelo amarelo meio esverdeado... Achei esquisito, tudo o que é esquisito sempre me chamou muito a atenção. Pela sua postura de rapaz educado a leite com pera, me pareceu ter alguma ligação com a Europa, provavelmente alguma descendência inglesa ou irlandesa devido a região, típica de Florianópolis.
Pedro viaja o mundo, quem é sua bússola de ouro? Porque ele viaja no meu lugar? Porque Capitu segue sendo violentada por Pedro? Porque ele não me deixa seguir meu mandato em paz?
Não dei a mínima importância para o que estava sendo dito durante a peça, me entusiasmei mais pelo entusiasmo do rapaz. Ao final de todo aquele lenga lenga para pegar mulher nos bastidores, fui até um dos meus eternos amantes para cumprimentar, elogiar, cheirar, trocar números no whatsapp. Além de fofo era gentil, percebi os olhares de ódio feminino em cima de mim quando me aproximei dele. Conversamos brevemente. Não foi dessa vez que engatamos um namoro antes do fatídico casamento. Escrevo tudo isso porque depois que nos casamos Charlie mudou, deixou de ser um rapaz caseiro e passou a ser um grande aventureiro. Vira e mexe, me deixa em casa sozinha com os afazeres de Estado, e os cuidados de nosso filho Azrael, que me suga as energias. Ligo para ele, e ele diz que está na Boca do Inferno participando de mais um documentário sobre Portugal. Onde ele estudou Artes.
Minha garganta é que está em frangalhos de tanto dizer para que ele volte para casa. Enquanto isso Pedro Gregório que é Deputado Estadual de São Paulo, pela segunda vez, ele sempre consegue se reeleger mesmo sendo totalmente dependente da história da sua família na política. Capitu não vê Pedro como um bom político, ele só entrou no poder por hereditariedade. Circula o mundo falando em meu nome...
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