Psiquê
Carolina vem a sessão sempre com roupa muito simples, muito confortável, quase parecendo que está indo a academia, correr por horas na esteira sozinha. Moleton, mais moletom, mais moletom (…). As vezes fico com vontade de perguntar a ela, se ela não possuí outras roupas. Estou na posição de sua terapeuta, e infelizmente, não posso fazer um questionamento desses. As vezes sonho que estou fazendo coisas antiéticas. Carolina nunca está nos meus sonhos. Acho estranho.
--- Como estamos?
--- Ando tendo um sonho muito repetitivo, e agonizante, um sonho que traz um medo constante de coisas simples…
--- Podemos falar desse sonho? – Psiquê gosta de moderar os sentimentos de seus pacientes com tons de voz, e expressões faciais reconfortantes.
--- Até explicar puxa dor e mais medo. Eu não sei o que está acontecendo comigo, tenho até vergonha de explicar… É um sonho muito bobinho.
Psiquê sabe que medo é algo muito pessoal e principalmente algo que não pode ser superado. Medo não se supera, não se extingue. Faz parte de estar vivo ter medo. E ele varia de pessoa para pessoa. Dona Glória estava chorando.
--- Pode levar o tempo que quiser, que eu estou aqui por você – Oferecendo uma caixa de lenços para essa senhora que já estava com seus 42 anos de idade, chorava como um bebê agora.
Dona Glória chorou sem quase fazer nenhum som, enxugou o nariz umas três vezes, e se esforçou para falar:
--- Uma vez quando ainda morava na casa de meus pais, eles estavam construindo um novo andar na casa, que era até então térrea. E eu boba, abri uma torneira na parte de cima, faltava água na casa, e como a água não saiu pelo cilindro, eu acabei esquecendo a torneira aberta…
A Senhora Novaes agora estava soluçando alto:
--- O piso da casa ainda estava no cimento, e toda a casa foi alagada durante a noite, quando a água da rua voltou sem nenhum aviso!
Psiquê balançou a cabeça como um cachorrinho, para a paciente perceber que ela estava muito atenta:
--- Seus pais como reagiram?
--- Eles não fizeram nada. Minha mãe olhou para mim com pena… - Aqui o choro ficou histérico.
Psiquê ficou em silêncio, ela houve muitas coisas pesadas de pacientes, mas nesse momento, sentiu algum tipo de dor, que a fez apertar o peito esquerdo. Ficou assim. Esperando a senhora Novaes conseguir continuar a se comunicar. Carolina ficou dez minutos olhando para o chão, e aliviando a dor e o medo com choro baixinho. O celular dela apitou, e ela levantou a cabeça muito rápido, levou um susto. Já faltavam quinze minutos para o fim da sessão, e ela resolveu explicar o sonho. Que era o que precisava ser feito nesse momento.
--- Eu sonho todos os dias que minha casa inteira foi alagada, da mesma forma que eu alaguei a casa dos meus pais quando eu era adolescente.
PARTE 9
Nenhum comentário:
Postar um comentário